Quando a Montanha se Revela

Ao montar acampamento no Pico Itapiroca, não imaginávamos que aquele entardecer nos proporcionaria uma vista tão surreal.

Estávamos diante de alguns gigantes da Serra do Ibitiraquire: o Pico Paraná, com 1.877 m; ao lado, o Pico Caratuva, com 1.860 m; e o próprio Pico Itapiroca, com 1.805 m.

Naquela tarde, a luz do sol iluminava o Pico Paraná de uma forma única, enquanto as sombras do Caratuva e do Itapiroca se projetavam aos seus pés. Era quase um prenúncio do que nos esperava no dia seguinte: um bate-volta até o cume do Pico Paraná.

E há um detalhe que torna essa montanha ainda mais especial: com 1.877 m, o Pico Paraná não é apenas o ponto culminante do estado do Paraná, mas também o ponto mais alto de toda a região sul do Brasil.

A subida até o cume é constante e exigente, com trechos de escalaminhada e vias ferratas que acrescentam um pouco mais de aventura ao percurso.

No retorno, tivemos outra surpresa. Conseguimos avistar o Pico Itapiroca e o nosso pequeno acampamento, em meio à Mata Atlântica. Ao lado, avistamos também o Cerro Verde e, mais ao longe, as encostas rochosas dos Picos Tucum e Camapuã.

É uma perspectiva diferente da montanha: depois de caminhar por horas por suas trilhas, olhar para trás e enxergar o lugar onde estamos acampados.

Todas essas montanhas fazem parte da Serra do Ibitiraquire, no Paraná, uma das regiões mais importantes do montanhismo e trekking na região sul do Brasil.

As trilhas exigem bom preparo físico, principalmente pelos trechos íngremes, desníveis e características do terreno.

Os principais pontos de acesso e apoio são as Fazendas Pico Paraná e do Bolinha.

A Luz da Despedida

Após quatro dias trilhando entre a Praia do Sono e Ponta Negra, explorando os acessos até os picos do Cairuçu e da Jamanta, chegava o momento de retornar para casa.

No último dia, seguimos pela trilha Laranjeiras até a Vila do Oratório. Depois de dias nublados, com chuvas pela madrugada e mata constantemente úmida e escura, o sol finalmente apareceu. E, por entre as árvores, seus raios abriram faixas de luz dentro da floresta.

A proposta era fazer as trilhas na costa e o ataque aos cumes, além de visitar as praias, rios e cachoeiras desse trecho do litoral sul do Rio de Janeiro.

Mas a montanha e a mata impuseram limites à nossa passagem. Tivemos o acesso restrito em alguns trechos devido à queda da ponte sobre o Rio Galhetas e ao desmoronamento de terra na serra, ambos próximos a Ponta Negra, na trilha para o Pico Cairuçu; e uma trilha bastante fechada pela mata, após duas horas de caminhada, no acesso para o Pico da Jamanta. Então, os cumes ficaram para 2027.

No final, foram 50 quilômetros percorridos em 18 horas de caminhada, tendo a Praia do Sono como nosso acampamento-base.

Nessa exploração, tivemos companhias inesperadas: os chamados “cães caiçara”, que vivem nas comunidades caiçaras e costumam acompanhar os caminhantes pelas trilhas.

Dois deles, um de cada comunidade, acabaram ficando conosco por dois dias cada. Sem nenhuma explicação aparente, simplesmente decidiram nos acompanhar. Surgiam pela manhã, caminhavam conosco nas trilhas e, ao final da tarde, desapareciam.

Então, após dois dias, na Ponta Negra, aquele que estava conosco ficou por lá. E, de repente, outro apareceu e passou a nos acompanhar. Uma espécie de revezamento silencioso.

Foram dias duros e escuros, entre trilhas molhadas e escorregadias, aclives e declives, travessias de rios, mata fechada e alguns momentos de alerta provocados pelos próprios cães, principalmente em determinados trechos da mata. Talvez houvesse algum animal por perto. Nada vimos ou ouvimos.

Mas foi justamente depois de tudo isso que a mata resolveu se abrir no último dia, em raios de sol que atravessaram a copa das árvores e iluminaram nossos passos.

Depois de quatro dias de mata fechada, chuvas e incertezas, a luz chegou como uma espécie de despedida.

A Jornada do Eu

Em algum momento da caminhada, a trilha deixa de estar apenas diante dos nossos olhos. Talvez seja quando levantamos a cabeça e percebemos que existe uma outra jornada acontecendo – aquela que fazemos dentro de nós.

Há milhares de anos, o ser humano tenta responder à mesma pergunta:

Quem sou eu?

Sócrates nos deixou o desafio: “Conhece-te a ti mesmo.”

Descartes encontrou uma certeza: “Penso, logo existo.”

Nietzsche foi além: “Torna-te quem tu és.”

E, no Oriente, outra possibilidade surgiu: talvez o “eu” que tanto procuramos nem seja permanente. Somos feitos de mudanças, experiências, encontros, escolhas e perdas.

Talvez seja por isso que caminhar tenha tanto a nos ensinar.

Na trilha, longe da pressa, dos papéis e das aparências, o silêncio começa a fazer perguntas:

Quem sou eu quando ninguém está olhando?

O que permanece quando deixo para trás aquilo que me define?

E quem estou me tornando enquanto sigo caminhando?

Talvez não exista uma resposta definitiva.

Talvez o “eu” não seja um destino a ser encontrado, mas um caminho que se revela enquanto avançamos.

Como numa trilha, algumas respostas aparecem na subida. Outras, somente depois de uma longa caminhada.

E talvez essa seja uma das maiores jornadas da vida – não chegar a um lugar, mas descobrir, ao longo do caminho, quem estamos nos tornando.

Adamu Trekking

Caminhos que também nos levam para dentro.