Depois da Trilha

Entre a Praia das Laranjeiras e a Ponta Negra, passamos alguns dias percorrendo trilhas, caminhando à beira-mar e pelas vertentes da Serra do Mar. Entre um mergulho no Poço do Jacaré e outro na Praia do Sono, exploramos também as trilhas que levam aos cumes dos picos do Cairuçu e da Jamanta.

Toda caminhada tem seus momentos de pausa. E, depois de um dia inteiro trilhando a faixa costeira, nada melhor do que parar em uma pequena vendinha na Praia do Sono, descobrir que o dono a deixou aberta e, algum tempo depois, vê-lo retornar para nos atender com uma tranquilidade serena. Sem pressa, abre uma cerveja bem gelada para brindarmos aquele dia.

Sem luxo, sem cerimônia. Ele sem pressa, nós também. Apenas a satisfação dos caminhos percorridos, dos cães caiçaras que nos acompanharam pela mata, como se fossem nossos guias, e dos desafios superados: a ponte caída, o deslizamento de terra em um trecho da serra e as paradas inesperadas de um dos cães, que parecia nos alertar sobre algo adiante, como quem diz que é melhor aguardar. No meio de tudo isso, muita prosa, pausas e contemplação da natureza.

Caminhar é preciso. Só assim descobrimos lugares, compartilhamos experiências e aprendemos que, muitas vezes, a felicidade está nas descobertas, nos mistérios da natureza e nas coisas simples.

Algumas conquistas se celebram no alto das montanhas. Outras, com os pés cansados, uma cerveja gelada e a certeza de que valeu a pena cada passo.

A Luz da Despedida

Após quatro dias trilhando entre a Praia do Sono e Ponta Negra, explorando os acessos até os picos do Cairuçu e da Jamanta, chegava o momento de retornar para casa.

No último dia, seguimos pela trilha Laranjeiras até a Vila do Oratório. Depois de dias nublados, com chuvas pela madrugada e mata constantemente úmida e escura, o sol finalmente apareceu. E, por entre as árvores, seus raios abriram faixas de luz dentro da floresta.

A proposta era fazer as trilhas na costa e o ataque aos cumes, além de visitar as praias, rios e cachoeiras desse trecho do litoral sul do Rio de Janeiro.

Mas a montanha e a mata impuseram limites à nossa passagem. Tivemos o acesso restrito em alguns trechos devido à queda da ponte sobre o Rio Galhetas e ao desmoronamento de terra na serra, ambos próximos a Ponta Negra, na trilha para o Pico Cairuçu; e uma trilha bastante fechada pela mata, após duas horas de caminhada, no acesso para o Pico da Jamanta. Então, os cumes ficaram para 2027.

No final, foram 50 quilômetros percorridos em 18 horas de caminhada, tendo a Praia do Sono como nosso acampamento-base.

Nessa exploração, tivemos companhias inesperadas: os chamados “cães caiçara”, que vivem nas comunidades caiçaras e costumam acompanhar os caminhantes pelas trilhas.

Dois deles, um de cada comunidade, acabaram ficando conosco por dois dias cada. Sem nenhuma explicação aparente, simplesmente decidiram nos acompanhar. Surgiam pela manhã, caminhavam conosco nas trilhas e, ao final da tarde, desapareciam.

Então, após dois dias, na Ponta Negra, aquele que estava conosco ficou por lá. E, de repente, outro apareceu e passou a nos acompanhar. Uma espécie de revezamento silencioso.

Foram dias duros e escuros, entre trilhas molhadas e escorregadias, aclives e declives, travessias de rios, mata fechada e alguns momentos de alerta provocados pelos próprios cães, principalmente em determinados trechos da mata. Talvez houvesse algum animal por perto. Nada vimos ou ouvimos.

Mas foi justamente depois de tudo isso que a mata resolveu se abrir no último dia, em raios de sol que atravessaram a copa das árvores e iluminaram nossos passos.

Depois de quatro dias de mata fechada, chuvas e incertezas, a luz chegou como uma espécie de despedida.