A Luz da Despedida

Após quatro dias trilhando entre a Praia do Sono e Ponta Negra, explorando os acessos até os picos do Cairuçu e da Jamanta, chegava o momento de retornar para casa.

No último dia, seguimos pela trilha Laranjeiras até a Vila do Oratório. Depois de dias nublados, com chuvas pela madrugada e mata constantemente úmida e escura, o sol finalmente apareceu. E, por entre as árvores, seus raios abriram faixas de luz dentro da floresta.

A proposta era fazer as trilhas na costa e o ataque aos cumes, além de visitar as praias, rios e cachoeiras desse trecho do litoral sul do Rio de Janeiro.

Mas a montanha e a mata impuseram limites à nossa passagem. Tivemos o acesso restrito em alguns trechos devido à queda da ponte sobre o Rio Galhetas e ao desmoronamento de terra na serra, ambos próximos a Ponta Negra, na trilha para o Pico Cairuçu; e uma trilha bastante fechada pela mata, após duas horas de caminhada, no acesso para o Pico da Jamanta. Então, os cumes ficaram para 2027.

No final, foram 50 quilômetros percorridos em 18 horas de caminhada, tendo a Praia do Sono como nosso acampamento-base.

Nessa exploração, tivemos companhias inesperadas: os chamados “cães caiçara”, que vivem nas comunidades caiçaras e costumam acompanhar os caminhantes pelas trilhas.

Dois deles, um de cada comunidade, acabaram ficando conosco por dois dias cada. Sem nenhuma explicação aparente, simplesmente decidiram nos acompanhar. Surgiam pela manhã, caminhavam conosco nas trilhas e, ao final da tarde, desapareciam.

Então, após dois dias, na Ponta Negra, aquele que estava conosco ficou por lá. E, de repente, outro apareceu e passou a nos acompanhar. Uma espécie de revezamento silencioso.

Foram dias duros e escuros, entre trilhas molhadas e escorregadias, aclives e declives, travessias de rios, mata fechada e alguns momentos de alerta provocados pelos próprios cães, principalmente em determinados trechos da mata. Talvez houvesse algum animal por perto. Nada vimos ou ouvimos.

Mas foi justamente depois de tudo isso que a mata resolveu se abrir no último dia, em raios de sol que atravessaram a copa das árvores e iluminaram nossos passos.

Depois de quatro dias de mata fechada, chuvas e incertezas, a luz chegou como uma espécie de despedida.