
Em Ariri Cananéia, no litoral sul de São Paulo, encontrei um pescador remendando sua rede. Aproximei-me. Ele estava concentrado, quase distante dali.
Começamos a conversar.
Falou do mar, dos peixes, dos dias bons e daqueles em que era preciso ir mais longe. Falou também das redes que, depois de tanto uso, acabam cedendo à força dos peixes e precisam ser novamente costuradas.
Em determinado momento, como quem fala da própria vida, disse:
“A vida é uma rede de ilusões.”
Olhei para aquela trama rasgada e me veio uma frase:
“Uma rede é uma porção de buraquinhos, amarrados com linha de pesca.”

Ele sorriu em silêncio. E respondeu:
“É assim que ela retém a minha esperança, o meu alimento e o meu sustento.”
Fiquei sem palavras. Continuei olhando suas mãos costurarem, ponto a ponto, aquilo que o mar havia rompido.

Antes de partir, ainda me disse que se sentia um homem de coragem por ir mais longe, mar adentro, sem medo de arriscar.
Naquele dia, entendi que algumas pessoas não precisam de grandes discursos para ensinar alguma coisa. Basta ouvi-las.
E talvez a vida seja mesmo uma rede: frágil, cheia de vazios, mas ainda capaz de segurar nossos sonhos.