Os Primeiros Observadores da Terra

Tudo começou às margens da Lagoa de Santana do Riacho. Para alcançar a outra margem, nosso guia e navegador, Luciano, utilizou uma longa vara de bambu, conduzindo a travessia com a tranquilidade de quem conhece cada detalhe daquele lugar. Entre histórias, causos e muitas risadas, navegamos por quinze minutos até iniciar uma curta caminhada rumo a um dos mais fascinantes patrimônios arqueológicos da região: as pinturas rupestres da Lapinha da Serra.

Datadas de aproximadamente 7 mil anos, essas manifestações de arte pré-histórica ocupam uma extensa parede de pedra e preservam memórias dos primeiros observadores destas paisagens, muito antes de existirem trilhas, mapas ou caminhos definidos. Entre cenas de rituais, animais, atividades cotidianas e figuras antropomórficas, algumas pinturas chamam a atenção de forma especial.

O veado aparece repetidamente ao longo do paredão, como um personagem recorrente dessa galeria ancestral. Em uma das pinturas, destaca-se pela intensa combinação de tons vermelhos e amarelos.

Em outra, dois cervos surgem em sentidos opostos, revelando diferenças sutis de traçado e coloração, como obras de artistas distintos.

Já uma terceira imagem convida a uma observação mais cuidadosa: o que inicialmente parece um conjunto de formas dispersas revela a figura de um animal maior, em amarelo, possivelmente uma fêmea, abrigando em seu interior uma figura menor, em vermelho. Uma representação que remete à fertilidade, à gestação e ao ciclo da vida.

Diante dessas pinturas, a sensação é de atravessar não apenas uma lagoa ou uma trilha, mas milhares de anos de história. Cada traço preservado na pedra nos conecta aos primeiros observadores destas paisagens, lembrando que a serra guarda memórias muito mais antigas do que qualquer caminho que percorremos hoje.

Adamu Trekking – explorando trilhas, histórias e os vestígios dos primeiros habitantes do Brasil.

O Olhar Vivo da Terra

“Há árvores que observam. Entre cascas e veios, a natureza às vezes molda um olho — como se a floresta, em seu silêncio antigo, decidisse olhar de volta. A imagem captura um desses instantes — a presença viva de algo que nos observa.”

Dizem que toda floresta tem um coração vivo. Um olhar antigo, gravado em sua entranha, que observa o passar das eras sem jamais piscar. Às vezes, esse olhar aparece encravado em um tronco — a lembrança viva de que a Terra nos vê o tempo todo.

É real. Eles habitam um espaço-tempo alternativo. Formas luminosas dançam entre as árvores. Vozes sussurram na névoa que surge do nada. Seres que nascem do encontro entre os elementais da natureza.

Os antigos contavam que, ao entardecer, a floresta se move sutilmente, como se cada folha respirasse com consciência. E quem percebe o olho em alguma árvore, já foi tocado, mesmo sem saber, pelo espírito que habita tudo o que é vivo na mata.

Seria um guardião? Ou apenas a própria vida, olhando de volta, lembrando que há mundos inteiros vibrando sob nossas pegadas.

O Brilho da Superfície

Mergulhei devagar, como quem entra em outra dimensão. A luz da superfície se fragmentava em mil pedaços, inundando o fundo com reflexos que dançavam sobre formas e cores. Logo percebi que ali era muito mais do que parecia ser.

Peixes atravessavam espirais amarelas como se seguissem correntezas invisíveis. Uma tartaruga, bem camuflada no fundo azulado – anciã, serena – guardiã desse mundo de profundezas silenciosas. Havia flores de cores e formas que alucinavam, folhas em movimento, um macaco curioso atrás de um cacho de banana – lembrança viva das matas tropicais que já percorri.

De repente, um caramujo repousava em espirais azuis, como se o tempo girasse dentro de sua concha. Abaixo, um tatu caminhava pelo leito arenoso, enquanto uma borboleta multicor flutuava tranquilamente, sem o bater das asas.

Mais adiante, uma coruja me observava – olhos de sol e lua, guardiã do mistério noturno. E, ao lado, um felino branco, uma silhueta sem olhos — seria um gato ou um guepardo? – Atento, parado, fantasmagórico. Até um galizé surgiu nas profundezas do meu delírio.

Atento, vejo sóis, luas e estrelas riscando aquele mergulho, unindo o céu, a terra e as profundezas. Era como se cada ser vivo, cada cor, cada forma, fosse um fragmento do que vivi – nas selvas escondidas, nas cavernas de águas turbulentas, nas lagoas silenciosas, nos rios de poços cristalinos e nos oceanos de outra dimensão.

Um mosaico de lembranças que nunca se desfaz, apenas ressurge na superfície. Tudo parece tão real – mergulhado nas memórias de um instante fora do tempo. Porque o que foi vivido não afunda na memória – brilha na superfície.