Templo Selvagem

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A selva é um santuário da mãe natureza.

Dentro dela ocorrem verdadeiros renascimentos dos seres que buscam alguma vivência em harmonia com a mata selvagem.

O jângal cobra de cada caminhante, coragem, humildade e perseverança para encarar as adversidades do percurso e seguir em frente.

Em certos momentos, os caminhos adentram genuínas abadias. Como numa redoma, amparada naturalmente por troncos e raízes aéreas.

A floresta revela um templo em equilíbrio. Cada movimento tem um significado. Sempre pedimos por proteção e entendimento para compreende-la.

No íntimo de uma selva, como num templo, somos carentes de compreensão de tudo, mas sempre agraciado com um regato cristalino ou uma brisa refrescante.

Floresta de Coníferas – Caminhar é Preciso

Na juventude da alvorada me levanto descansado. A barriga reclama por um reforçado café matutino. Com a mente desperta procuro a janela para ver a serra. Graças a cerração matinal só consigo ver as colinas na vizinhança.

No verde altivo da estrada vejo o céu azul e a encosta coberta por pinheiros. Sigo no aclive ligeiro. Estaciono. Procuro pelo sol que sacode a neblina. Vejo a floresta de pinheiros. Olho para o alto, me surpreendo com as coníferas à frente.

Agacho para conferir o solo pobre e seco. Procuro pelas pinhas ovaladas. Percebo uma floresta antiga de pinheiros escamosos. Ainda na sombra do frio matinal me aconchego para dentro da floresta. Solitário, no silêncio olho para o céu azul. 

Chamamos as pinhas de cones em atenção ao nome coníferas. Não há flores e nem frutos. Neste dia não houve sonido entre as árvores. O vento ficou preso nas colinas ao longe. Se eu pudesse subiria no topo de um pinheiro para ver o horizonte.  

Logo alcanço o topo da colina e busco apurar a vista. Entre os galhos e troncos vejo minha terra nativa. O dia azul destaca a urbe vertical. Soberana nos arranha-céus. O progresso não para. Observo a beleza da curvatura do Arco da Inovação.

Mas aqui dentro da floresta, ser pinheiro longevo é ser forte. Se o minuano chega farto, o pinheiro verga, mas não lasca. Da visão do interior, dá alegria ao caminho as coníferas de semente nua e do emaranhado dos troncos desgarrados.

Voltar a Ser Livre – Sonho ou Realidade

Agora a liberdade está tão real nos sonhos. Às vezes questiono minha sanidade. Acordar e lembrar do sonho, voltar a dormir e sonhar de onde o sonho parou. Isso sim é maluco. Em um deles subi a colina com mais dificuldade, não desisti. Percebi tudo em preto e branco. Cadê as cores? Cadê a alegria? Senti a respiração ofegante. Olho para trás e nada vejo. Então fui em frente. Caminhei muito mais, por horas a fio. Sei que espírito livre precisa de corpo físico inanimado. Sempre são incansáveis horas de trabalho, as vezes estudo, mas sei bem que muitos deles nada lembro. Certo de que ainda não estou preparado para lembrar de todos. Acordo descansado. Agora tenho outra batalha para lutar. Sei que nesse orbe turbulento é preciso ser guerreiro nas atitudes do bem comum. Vou para o espelho, não é um sonho. Olho no olho, vai encarar? Elevo um sorriso silencioso e respeitoso. Sim existem inimigos lá fora, mas o maior deles acabei de confrontar. Então, coragem! Vamos à luta para lá fora voltar a ser livre.

A Grande Mãe – Saco do Mamanguá

A admirável mãe se debruçou…

Há séculos em ascensão aos céus, símbolo magno da vida, por vez sequiosa por águas turbulentas, se aproximou do abismo das margens úmidas.

O grandioso tronco se ramificou em galhos fortes na busca do sol vivo. Apesar da superioridade alcançada, se viu pendida sobre o rio Grande. Agora penetra as rochas e foge das corredeiras. Ela bebe das águas do conhecimento. Ainda perene, segue corpulenta.

Agora em tempos de tempestades tardias, da primavera derradeira, as águas turbulentas buscam novos caminhos para transpor a grande mãe. Os espíritos da floresta espreitam felizes nesta brincadeira das águas.

Então fui descansar em seus braços, debaixo do tronco maior, ao lado das corredeiras mansas. Apenas fluido, fluindo nas corredeiras, feliz. A grande mãe me acolheu em seus braços.

A grande mãe é pura regeneração. Sem medo, ainda se avolumando com ímpeto, galhos vertendo verticalmente, incontáveis folhas morrendo e renascendo a todo instante, cíclica, fértil. A grande árvore da fonte da vida.

De raízes imensas, embrenhadas nas profundezas escuras do subterrâneo da terra. Aquele tronco descomunal, vertido na superfície, os galhos buscam forças para alcançar novamente a luz do céu. Até quando a grande mãe vai resistir à tentação das águas descomunais que chegam na estação iminente?

Logo, do tronco ceifado e inerte da grande mãe, a vida regenera num minúsculo broto verde. A morte e vida se confundem. É o ciclo que se renova!

Terra Firme – Navegar é Preciso

” O sol abraçou o amanhecer e fui remar naquele oceano imenso. Navegava em água mansa de céu azul-fino. Tentava fitar as últimas estrelas da manhã. Remava na medida do meu tempo e pensamentos.

O mar inundou as margens. O mangue desvaneceu. 

Percebi que navegava em direção a grande montanha. Estava sendo engolido pela mata. As ilhotas ficaram na retaguarda e as margens cada vez mais estreitas. A natureza trasbordava e gritava com seus encantos em todos os cantos. 

Navegava em oceano antigo. 

Cansado de remar percebi como a montanha se agigantou. Fiquei aos seus pés. Contemplei sua grandeza em silêncio. Sem precisar do tempo entendi que era hora de retornar.

Naquele momento um boto emergiu do nada.

Após o susto, foi divertido ele nadar ao lado. Então notei a montanha tão distante. Onde foi parar aquela grandeza? Por um instante fiquei pensativo, à deriva. 

Exausto, reuni forças para terminar o percurso e voltar a terra firme. “

A Mão que Amassa o Barro – Cunha

O oleiro molda o barro. 

Ainda maleável, controlado, formado e transformado.

Sua forma se ajusta nas mãos do criador. 

As imperfeições são retrabalhadas.

As falhas são desfeitas. 

Ele quer perfeição.

Sua obra prima está quase pronta. 

Ainda precisa do fogo para queimar sua essência.

O amalgama para a transformação final. 

O início de uma jornada de trabalho útil.

Agora sólido, estável, mas ainda impermanente.

Nas mãos de quem amassa o barro.

Conversando com Árvores – Caminhar é Preciso

” Pode contar seus segredos ao vento, mas depois, não vá culpá-lo por contar tudo às árvores. “

Khalil Gibran

Nos ensinamentos do Xamanismo, dizem que as plantas possuem “consciência” e “uma missão neste planeta”. Por outro lado, em pesquisas com plantas, nas mais diversas áreas do conhecimento, estudos demostram que elas têm “emoções” e “sentimentos”.

Como tudo está conectado nesse orbe, elas não estão aqui por acaso. Além de nos proteger e nutrir, pode auxiliar na “evolução” de nossa consciência através da energia e poder curativo que elas têm para tratar os males do corpo físico e extra físico.

O respeito e gratidão ao reino das plantas é valoroso. Como em uma caminhada, estar na natureza é resgatar a nossa essência, poder limpar a mente, equilibrar o padrão vibratório e harmonizar as emoções.

Acredite ou não, esta energia é real. Então o jeito é caminhar nas matas e montanhas, estar próximo a natureza, e de tempos em tempos, abraçar uma árvore e trocar ideia com as plantas (risos).

Lua Interior – Caminhar é Preciso

Ao caminhar na montanha, a Lua surgiu apressadamente durante aquele entardecer. Parecia tão perto como uma mãe protetora, mas não se engane, em outras noites frias ela ficou indiferente e apática, quase não apareceu.

O vento gélido trouxe recolhimento.

Entre a Lua e a Terra as distâncias são verdadeiramente astronômicas e decerto descuidamos de quão distante ficamos de nós mesmos.

Ao amanhecer na montanha, a luz brilhou radiante. Era um novo despertar que aquentou os campistas. A Lua, esplendida no céu, permaneceu ali, até que a claridade tomou conta do dia e ela se foi.

O alvorecer trouxe desprendimento.

Como sempre não vi o lado escuro da Lua e naturalmente dentro de nós habita um lado obscuro, um manto que devemos descortinar.

Atos de Virtude – Caminhar é Preciso

” Nas intempéries da montanha as virtudes humanas são moldadas, às vezes, a duras penas quando não estamos atentos aos sinais. “

Ato I – Entusiasmo

É energia interior que promove a vitalidade para executar o plano traçado.

Ato II – Paciência

É o controle das emoções e desejos, atraindo esperança e bem-estar no dia-a-dia.

Ato III – Coragem

É o exercício do domínio do medo diante de situações difíceis e adversidades da vida.

Ato IV – Flexibilidade

É constante adaptação às circunstâncias e relacionamentos, criando condições para permanecer firme.

Ato V – Disciplina

É ordem em harmonia aos preceitos estabelecidos, com tolerância e perseverança para a vida ser possível.

Ato VI – Generosidade

É verdadeiramente gostar do outro e ajudar sem nada em troca, no constante exercício do desapego e caridade.

” Nas longas caminhadas da vida, de nada vale as virtudes se não mergulhar no interior de si para que o melhor transborde. “

Estrada Sem Fim – Caminhar é Preciso

Na busca de novos desafios em montanha e trekking, não temos escolhas, é preciso seguir por estradas, que muitas vezes parecem não ter fim.

Nestas estradas temos a companhia de um companheiro silencioso: o inexplorado.

O inexplorado nos deixa curioso. Faz a imaginação ir longe. Quase sempre o que vemos ao longe parece impossível de ser atingido e superado. Assim sigo o plano com atenção e cautela. O espírito desbravador deve falar mais alto.

O inexplorado nos deixa cismado. Deixe pensamentos ruins voarem para longe. A intuição é certeira e chega de supetão. Então sigo adiante reavaliando os riscos associados. O espírito observador deve ser superior.

O importante é seguir adiante, estar alerta e saber o momento de estacionar, desviar, ou até mesmo, desistir. A humildade deve ser a primeira companheira.

Por isso seja no asfalto, na terra, no cascalho ou na lama, as estradas são apenas o início da jornada.

Ao final do trajeto, a caminhada só está começando. O jeito é relaxar e aproveitar a paisagem. Caminhar é preciso!