Me aventurei numa terra escondida, desconhecida, ainda sem nome. A primeira vez que a vi, examinei com atenção. Além de um rochoso, as pedras na encosta da montanha confirmaram os mirantes naturais.
A mesma terra escondida que quando criança imaginava uma grande parede, contínua, sombreada e distante. Logo depois fui aprender que era uma grande cadeia montanhosa, chamada de Mantiqueira.
Significa “serra que chora”, nome dado pelos indígenas, graças as nascentes que descem pelas encostas da serra organizando riachos e afluente rios, até formar o rio Paraíba do Sul no Vale do Paraíba.
Nesta parte de terra escondida da serra, não a vi chorar. Seus minadouros estão bem abaixo na vastidão da sua extensão. Pousei ao lado de um rochoso, enviesado para o sul de minas, abrigado da ventania que vem do vale.
Em terra escondida não se engane, mesmo os mais experientes desbravadores, são fustigados pelo jângal, que arrebata sua energia e pensamentos. Limpa sua mente de tal forma que até fica desorientado.
Quando se planejou meia boca, deixou de lado um roteiro e fez descaso para as questões logísticas, ou ainda, acampou no improviso, sem os equipamentos mínimos necessários para uma boa noite de descanso.
Quando a natureza, na sua grandiosidade, chegou avassaladora, dizendo que quem manda no pedaço é ela, trazendo tempestades e condições climáticas extremas, e os equipamentos não foram apropriados para garantir segurança e mínimo conforto.
Quando alguém do grupo não se preparou fisicamente para o desafio, dificultando a jornada de todos, ou participou de um grupo sem liderança e sem objetivos comuns para a boa convivência, com integrantes sem o verdadeiro espírito trilheiro e de montanhista.
Quando apesar de tudo arrumado, imprevistos ocorreram, e daí fomos desafiados no limite de nossas forças físicas e mentais; e fomos resilientes para superar os conflitos. Houve a necessidade de reajustar a rota ou simplesmente encurtar o caminho.
Mas sob outra perspectiva, foi em noites eternas que se vislumbrou as estrelas por uma eternidade. A beleza disso tudo foi a esperança que se renovou após cada pernoite, onde ao amanhecer, fomos presenteados com um dia radiante.
Por isso, na finitude dessa jornada, a consciência seguirá na eternidade. O jeito é aproveitar o máximo, da melhor forma possível, mesmo quando surgirem noites eternas, e corajosamente seguir em frente. Caminhar é preciso!
Logo no primeiro aclive, um mar imenso, azul e misterioso. Atentei a batida das ondas na encosta. Sim, na travessia do canal, água calma como uma lagoa e na costeira sul-leste da ilha, impera grandes ondas, fortes correntes marítimas e muitos naufrágios.
Do Borrifos, a caminhada em estradinha de terra se transforma em trilha de pedras e terra batida, alternando planos e desníveis, longe da encosta, agraciado pela sombra da mata e refrescante água doce nas cachoeiras da Lage, Areado e Saquinho.
Após algumas horas, a trilha sai da mata, se acolhe próximo a encosta no estonteante mirante do Bonete. Ali bem escondida, a comunidade caiçara do Bonete vive tranquilamente, onde se proseia com os caiçaras as histórias, lendas e mistérios da ilha.
No segundo dia, após bom descanso e café da manhã reforçado, seguimos na travessia subindo o mirante da Barra para nos despedirmos do Bonete. Olhando para o lado sul da ilha, uma extraordinária vista da Ponta do Boi.
De volta a trilha, em pouco tempo alcançamos a praia das Enchovas. Admirável praia, deserta, por toda extensão literalmente revestida em pedras, até tocar o mar no canto oposto, onde as pedras se agigantam em belas formações para mar adentro.
Atravessamos um refrescante riacho para seguir, na margem oposta, a trilha em direção à praia de Indaiauba. Outra pausa, deste ponto a travessia se afasta da costa, segue picada na mata, atravessa charcos, entre aclives e declives dentro do jângal atlântico.
Após horas de travessia, pausa rápida na praia Vermelha e seguimos para praia Mansa e depois até o destino final, a praia de Castelhanos. Era tarde de sábado e rolava aquele futebol na areia da praia. Ficamos por ali mesmo apreciando aquele entardecer.
No dia seguinte exploramos a enseada de Castelhanos, do mirante do Coração ao mirante, cachoeira e praia do Gato. Inclusive na praia do Gato, debaixo das pedras, pudemos temer as águas agitadas e perigosas das marés e ondas fortes.
No último dia, subimos a estradinha de terra em direção a balsa para voltar ao continente. Nos despedimos da comunidade caiçara de Castelhanos. Naquela manhã o mar estava bem calmo e a praia deserta, encoberta por um misterioso nevoeiro.
Em cada acampamento, deixamos o local onde acampamos igual como o encontramos. O lixo produzido foi trazido conosco e descartado em local apropriado.
” O sol abraçou o amanhecer e fui remar naquele oceano imenso. Navegava em água mansa de céu azul-fino. Tentava fitar as últimas estrelas da manhã. Remava na medida do meu tempo e pensamentos.
O mar inundou as margens. O mangue desvaneceu.
Percebi que navegava em direção a grande montanha. Estava sendo engolido pela mata. As ilhotas ficaram na retaguarda e as margens cada vez mais estreitas. A natureza trasbordava e gritava com seus encantos em todos os cantos.
Navegava em oceano antigo.
Cansado de remar percebi como a montanha se agigantou. Fiquei aos seus pés. Contemplei sua grandeza em silêncio. Sem precisar do tempo entendi que era hora de retornar.
Naquele momento um boto emergiu do nada.
Após o susto, foi divertido ele nadar ao lado. Então notei a montanha tão distante. Onde foi parar aquela grandeza? Por um instante fiquei pensativo, à deriva.
Exausto, reuni forças para terminar o percurso e voltar a terra firme. “
Hoje em dia nas grandes cidades não temos como evitar um engarrafamento no transito ou uma fila no banco, mas engarrafamento na montanha, ninguém merece!
Então vamos deixar a alta montanha, e voltar o olhar nas montanhas do Brasil. Infelizmente, estamos encontrando o mesmo problema. O engarrafamento, por exemplo, começa na portaria da entrada, parte alta do Parque Nacional de Itatiaia, com enorme fila de carros já no início da madrugada. Depois, apesar da regra limitando o número de pessoas nas montanhas, os engarrafamentos naturalmente acontecem na subida do Pico Agulhas Negras e Prateleiras.
E quando o local ainda não é protegido e controlado, com regras de uso para segurança dos visitantes. Como exemplo, o Pico do Marins onde o engarrafamento na escalaminhada final da montanha é comum na alta temporada. Enquanto que na Serra Fina, a cada temporada temos inúmeros casos de pessoas perdidas durante a travessia, e o resgate pelo ar e/ou por terra são acionados. Isso sem falar do lixo deixado nestes locais.
Novamente, além dos montanhistas inexperientes, temos também a falta de consciência sobre não deixar lixo na montanha, respeitar regras de segurança no trekking e camping, ter um bom planejamento e equipamento adequado. Aqui não temos o ar rarefeito, mas no inverno temos frio, vento e temperaturas negativas podendo causar hipotermia, e no verão temos tempestades com raios e ventania forte. Ainda temos a possibilidade de cerração, neblina e dificuldade para orientação e navegação em terreno rochoso, íngreme e bastante irregular.
Então vamos para um local de fácil acesso na montanha. Mesmo assim, hoje em dia, também tem engarrafamento no topo. Neste caso, veja como fica a Pedra da Macela em Cunha. Milhares de “self” ao nascer do sol.
No poente, temos o anuncio da noite escura, do frio intenso e dos animais que saem a caça. É hora de montar abrigo. O desconhecido e o medo ficaram lá fora.
Ao amanhecer, o sol radiante declara que a vida continua. Momento de contemplação e agradecimento por tudo e por todos os seres vivos.
Respiramos fundo e seguimos em frente, com determinação, vontade e fé.
Como caminhar é preciso, agora é hora de montar a mochila da próxima aventura.
Dizem que o desbravador não tem medo do desconhecido.
Na montanha, temos que ser fortes e humildes para superar as adversidades do relevo e clima severo. Algumas vezes, temos que respeitar o que a montanha nos diz e entender que nem sempre chegaremos no cume na primeira vez.
A natureza é fascinante!
Ao amanhecer na montanha, o sol desponta no horizonte trazendo luz e calor. Do alto, o mar de nuvens seduz o espírito. O pensamento em oração contempla mais um dia de vida.
Como caminhar é preciso, vamos a última parte desta empreitada exploratória.
Dizem que desbravar é ir ao encontro do desconhecido.
Na mata, mesmo que seja pela enésima vez, e a vivencia tem nos dados alguma sabedoria, toda preparação prévia é crucial; E durante a jornada deve-se cuidadosamente executar como se fosse a primeira vez.
A natureza sempre nos reserva algo novo!
Ao amanhecer os raios de sol despertam a mata. A luz e o calor dão novo brilho aos seres da floresta. O caminho se abre e seguimos em frente.
Dentro da floresta surgem passarelas que formam tapetes de folhas, aliviando nosso caminhar. Em outros momentos todas as árvores querem nos abraçar.
Como caminhar é preciso, em algum lugar na serra dos Poncianos, parte da serra da Mantiqueira, e vamos adiante.
Aproveitando mais um final de semana com horário de verão, descemos para Ubatuba até a praia da Fortaleza.
Nossa motivação era novamente buscar um local especial para caminhar e nadar, e desta vez acampar numa praia selvagem. A praia escolhida foi a praia do Cedro.
Desta vez, ao invés da saída ser na praia da Lagoinha, partimos da praia da Fortaleza. Com esta inversão a distância total da caminhada foi reduzida de 10 para 6 km.
Todo o percurso é dentro da mata em trilha costeira, ao contrário do outro lado onde se passa por diversas praias, entre elas, a praia do Bonete de Ubatuba.
O mais divertido é acampar na praia do Cedro. Com espaço de sobra para as barracas, também montamos uma rede para ficar de papo para o ar.
No Cedro o tempo não passa. Fizemos tanta coisa entre preparar acampamento e almoço, e ainda tínhamos cinco horas de luz do dia.
A brisa batia forte refrescando todos os cantos, mas com o movimento aparente do sol, o calor invadiu as barracas. O jeito foi cair na água.
O jantar se prolongou por horas a fio até cozinhar os quitutes.
Depois na areia da praia, ficamos absorto pela batida das ondas naquela noite escura e observamos uma luz fraca que vinha da ilha do Mar Virado. Seria embarcação ancorada ou alguém na ilha? Naquela noite os pensamentos voaram junto com a brisa do mar!
Mais um dia de verão em um paraíso do litoral norte de São Paulo.
Ao retornar, deixamos o local onde acampamos igual como o encontramos. O lixo que produzimos no acampamento foi trazido conosco para descarte em local apropriado.
Que tal aproveitar um longo sábado de verão fazendo uma caminhada light?
A ideia era ter um bom motivo para caminhar e nadar num lugar especial. A trilha deveria ser de fácil acesso e baixo nível de dificuldade.
Então descemos a serra até a praia da Tabatinga, última praia de Caraguatatuba. O dia amanheceu nublado e depois veio sol e muito calor.
O bate-papo tomou conta durante o trajeto. Com paradas constantes fomos apreciando a paisagem costeira com vista para a praia da Figueira e ilha do Tamanduá.
Nosso destino final chegou numa lagoa que dá nome ao local, praia da Lagoa, localizada no extremo sul de Ubatuba.
No canto esquerdo da praia, entre a mata e o mar, encontramos uma lagoa de águas tranquilas e temperatura morna que as vezes se uni ao mar frio e agitado.
Em uma aventura segura nadei do lado da margem arenosa até o fundo da lagoa. Em silencio, com movimentos lentos, observando a mata e os pássaros presentes.
Na volta visitamos a praia Ponta Aguda. No final, de volta a Tabatinga, somamos cerca de sete quilômetros de caminhada.
No próximo post mostraremos mais um dia de verão. Desta vez será num final de semana com acampamento em uma praia selvagem de Ubatuba.