Não canso de ti ver todos os dias. Vai embora devagarinho. Muitas vezes nem aparece. Tudo bem né, sei da sua grandeza e da humildade para deixar a lua chegar de mansinho, iluminando a vereda. Apesar da noite fria, me acolho em um porto seguro. Logo, a luz e calor me aquece outra vez, para ganhar força e arrastar a nau até o mar. Então chega radiante a “Luz do Dia”.
Voltar a Ser Livre – Sonho ou Realidade
Agora a liberdade está tão real nos sonhos. Às vezes questiono minha sanidade. Acordar e lembrar do sonho, voltar a dormir e sonhar de onde o sonho parou. Isso sim é maluco. Em um deles subi a colina com mais dificuldade, não desisti. Percebi tudo em preto e branco. Cadê as cores? Cadê a alegria? Senti a respiração ofegante. Olho para trás e nada vejo. Então fui em frente. Caminhei muito mais, por horas a fio. Sei que espírito livre precisa de corpo físico inanimado. Sempre são incansáveis horas de trabalho, as vezes estudo, mas sei bem que muitos deles nada lembro. Certo de que ainda não estou preparado para lembrar de todos. Acordo descansado. Agora tenho outra batalha para lutar. Sei que nesse orbe turbulento é preciso ser guerreiro nas atitudes do bem comum. Vou para o espelho, não é um sonho. Olho no olho, vai encarar? Elevo um sorriso silencioso e respeitoso. Sim existem inimigos lá fora, mas o maior deles acabei de confrontar. Então, coragem! Vamos à luta para lá fora voltar a ser livre.
Uma Baita Travessia – Ilhabela
Logo no primeiro aclive, um mar imenso, azul e misterioso. Atentei a batida das ondas na encosta. Sim, na travessia do canal, água calma como uma lagoa e na costeira sul-leste da ilha, impera grandes ondas, fortes correntes marítimas e muitos naufrágios.
Do Borrifos, a caminhada em estradinha de terra se transforma em trilha de pedras e terra batida, alternando planos e desníveis, longe da encosta, agraciado pela sombra da mata e refrescante água doce nas cachoeiras da Lage, Areado e Saquinho.
Após algumas horas, a trilha sai da mata, se acolhe próximo a encosta no estonteante mirante do Bonete. Ali bem escondida, a comunidade caiçara do Bonete vive tranquilamente, onde se proseia com os caiçaras as histórias, lendas e mistérios da ilha.
No segundo dia, após bom descanso e café da manhã reforçado, seguimos na travessia subindo o mirante da Barra para nos despedirmos do Bonete. Olhando para o lado sul da ilha, uma extraordinária vista da Ponta do Boi.
De volta a trilha, em pouco tempo alcançamos a praia das Enchovas. Admirável praia, deserta, por toda extensão literalmente revestida em pedras, até tocar o mar no canto oposto, onde as pedras se agigantam em belas formações para mar adentro.
Atravessamos um refrescante riacho para seguir, na margem oposta, a trilha em direção à praia de Indaiauba. Outra pausa, deste ponto a travessia se afasta da costa, segue picada na mata, atravessa charcos, entre aclives e declives dentro do jângal atlântico.
Após horas de travessia, pausa rápida na praia Vermelha e seguimos para praia Mansa e depois até o destino final, a praia de Castelhanos. Era tarde de sábado e rolava aquele futebol na areia da praia. Ficamos por ali mesmo apreciando aquele entardecer.
No dia seguinte exploramos a enseada de Castelhanos, do mirante do Coração ao mirante, cachoeira e praia do Gato. Inclusive na praia do Gato, debaixo das pedras, pudemos temer as águas agitadas e perigosas das marés e ondas fortes.
No último dia, subimos a estradinha de terra em direção a balsa para voltar ao continente. Nos despedimos da comunidade caiçara de Castelhanos. Naquela manhã o mar estava bem calmo e a praia deserta, encoberta por um misterioso nevoeiro.
Dia Lindo de Outono

” Está fazendo um dia lindo de outono.
A praia estava cheia de um vento bom, de uma liberdade. E eu estava só. E naqueles momentos não precisava de ninguém. Preciso aprender a não precisar de ninguém. É difícil, porque preciso repartir com alguém o que sinto.
O mar estava calmo. Eu também. Mas à espreita, em suspeita. Como se essa calma não pudesse durar.
Algo está sempre por acontecer. O imprevisto me fascina. “
Clarice Lispector
Aqui jaz um Paquete! – Saco do Mamanguá
Na caminhada tranquila, encantado com os morros esverdeados, céu azul e mar sereno. Era pura alegoria da natureza em seu estado simples e verdadeiro. O calor queimava a pele. Me escondia nas sombras dos arbustos e arvoredos. O refrescar era oportuno.
Então dei de cara com a Jabiraca. Me deleito sorrindo se o nome da embarcação foi dado pelo capitão do barco em galanteio a sua amada, isso é claro, sem ela saber o significado.
No ditado popular jabiraca é mulher feia, um estrupício para falar a verdade, onde a gente passa vergonha em público. Também indica tudo que está velho, não serve para mais nada.
O melhor mesmo foi atirar a mochila de lado e cair no mar. Já de cabeça fria, olhando aquele naufrágio encalhado, me veio que o meio ambiente daria conta de tudo.
Água salgada, marés, vento, sol e chuvas, fariam o serviço completo. O paquete se fará pó, e juntar-se-á areia fina. E lá se vai para sempre a Jabiraca.
Os Filhos são como as Águias
” Os filhos são como as águias, ensinarás a voar, mas não voarão o teu voo. Ensinarás a sonhar, mas não sonharão os teus sonhos. Ensinarás a viver, mas não viverão a tua vida. Mas, em cada voo, em cada sonho e em cada vida permanecerá para sempre a marca dos ensinamentos recebidos. “
Madre Teresa de Calcutá
Parece que foi Ontem – Pedalar é Preciso
Parece que foi ontem, golpeado duas vezes, no mesmo momento. Quase knockout. Respirei fundo, me levantei. Em recesso, pedalei muito. É verdade que várias vezes sem um destino final, apenas fui em frente.
Parece que foi ontem, revisitei caminhos antes percorridos. Busquei novas direções. No início, entre acertos e desacertos, andei perdido. A cada dia, ecoando novos rumos e destinos. Exploro minha sensatez. Ainda acertando o prumo.
Parece que foi ontem, uso máscara como um desgarrado. Após nove meses, não preciso mais me sufocar com algumas “máscaras”. Enquanto que outras percebi que são bem dispensáveis nessa transição planetária.
Parece que foi ontem, continuar atento a turbulência ao redor. Cuidado! Cuidando dos próximos. Tudo parece desconexo. Por vezes abatido, procuro um novo alento. Continuo a pedalar, buscando novos panoramas.
As Pegadas ao Meu Lado
Enselvado – Saco do Mamanguá
Embrenhado na mata. Tudo a flor da pele. Em movimentos compassados, desviando do jângal cortante. Atento aos seres ocultos que rastejam no matagal escuro. Encoberto nas folhagens grossas, busco as frestas de luz. Vem do alto. Tudo verde, tons claro escuro. Natureza viva, esperança. Estimulo reconfortante, na caminhada calma. O verde acalma. Passo-a-passo, corpo e mente ativos, equilíbrio em terreno intocado. Na selva, gotejo. Assombrado em pesar meu estado finito. Seguindo em frente, rasgando a mata, entre espasmos musculares e ardume nos pés. Assolado pela dor. Afora energias boas para depurar os corpos. Sigo a luz na folhagem. Fecho os olhos, me transporto, leve em espírito. Capturo a energia do sol, me aqueço. Nas células da planta vejo espectros de luz, verde ás suas folhas. Como uma simbiose entre seres. Que movimento incrível, volito livremente nas copas mais altas, num revoar controlado. Indo além da mata escura. Driblo a densa folhagem, já me vejo bem acima, agora contemplando a imensidão em tons verdes. No absurdo da minha imaginação, extravagante, acordo descansado, e novamente enselvado.
Artistas da Pré-História Brasileira – Parque Nacional da Serra da Capivara
A mais de 10.000 anos atrás nossos ancestrais, caçadores-coletores, habitaram selvas verdes da mata atlântica na região do nordeste brasileiro.
Certamente a fauna era abundante, e assim tinham tempo livre para representar o cotidiano em pinturas rupestres, encontradas em centenas de sítios na Serra da Capivara, ao sul do estado do Piauí.
Nas paredes das tocas, os painéis das pinturas retratam a evidência que ali viviam muitos animais, além das cenas do cotidiano, como a caça, o sexo, o nascimento, a dança e os rituais.
Os seres antropomórficos aparecem em cores e feitio diferente. Em algumas figuras vale a imaginação para tentar entender o que é ou o significado da cena.
As imagens são uma amostra do registro feito nas caminhadas dentro do Parque Nacional da Serra da Capivara, nas tocas do Pajaú, do Barro, do Baixão da Vaca, das Eminhas e Veadinhos Azuis, do Deitado, da Gameleira, da Saída, do Paraguaio, do Caldeirão e Baixão das Andorinhas.
Esta é a primeira etapa de uma jornada na Serra da Capivara e Serra das Confusões. Em novos posts mostraremos muito mais das inscrições rupestres e também da mega fauna.































