Na Ilha Comprida, quem imagina que a extensa faixa de areia pertence apenas aos caminhantes logo percebe que está enganado.
Enquanto admirávamos o encontro entre o oceano e o lagamar, os verdadeiros anfitriões já ocupavam seus lugares. Algumas aves de rapina desenhavam círculos no céu. Outras patrulhavam a areia em pequenos bandos. E estas duas pareciam ter assumido, com absoluta serenidade, o turno da fiscalização.
Uma de olho no mar.
A outra de olho em nós.
A natureza estava em seu melhor cenário: aves ao vento, sol a pino, calor reconfortante e uma ventania insistente que fazia questão de lembrar quem realmente comandava aquele domingo.
Caminhar descalço transformou a trilha em uma experiência à parte. A areia, aquecida pelo sol, contrastava com o vento frio vindo do oceano. Era como se a natureza equilibrasse, no mesmo instante, o calor e o frescor, a força e a delicadeza.
A natureza tem dessas sutilezas. Uma trilha nunca é feita apenas de paisagens. Ela é feita de encontros: alguns rápidos, outros curiosos; alguns silenciosos, outros nem tanto. Basta diminuir o ritmo para perceber que sempre há uma história acontecendo ao nosso redor.
Entre o oceano agitado e a serenidade do lagamar, ficou evidente que os verdadeiros moradores daquele paraíso estavam completamente à vontade. Não precisam de mapas, bússolas ou equipamentos. Conhecem cada metro quadrado daquele território muito antes da chegada de qualquer visitante.
Enquanto caminhávamos, surgiu uma curiosa inversão de papéis. Observávamos aquelas aves com atenção, tentando compreender seus movimentos. Mas, por alguns instantes, tive a impressão de que eram elas que nos estudavam, avaliando nossa presença naquele imenso cenário onde elas sempre estiveram.
A natureza não precisa nos ensinar nada. Basta observá-la com atenção, e as respostas começam a surgir.
