Conjunto da Obra – Uma Trilha em Perspectiva

“A caminhada se entende quando se vê o conjunto da obra”

Existem trilhas que podemos definir como verdadeiramente fantásticas pelo conjunto da obra. Isso acontece quando avaliamos, de forma integrada, todos os fatores que influenciam o grau de dificuldade em uma trilha de montanha — distância, desnível, tipo de terreno, altitude, condições climáticas, exposição a riscos técnicos, navegação, peso da mochila, duração, acessibilidade e apoio. A combinação desses elementos determina se uma trilha será classificada como fácil, moderada, difícil ou muito difícil. Por isso, é sempre importante considerar sua experiência e vivência em trilhas e montanhas antes de embarcar em uma nova aventura, seja por conta própria ou acompanhado de um profissional ou empresa especializada.

Nesta trilha em particular, todos esses fatores se somam a uma visão panorâmica de 360º de toda a região ao redor da serra e suas montanhas, fazendo dela um belo exemplo de conjunto da obra. E você, analisando os dados abaixo, qual grau de dificuldade acha que ela merece?

A caminhada foi realizada a partir do acampamento Alto dos Mirantes até a Pedra Partida, com mochila de ataque, em um dia de dezembro, entre sol e nuvens, na Serra da Mantiqueira (região Serra dos Poncianos). O trajeto fica entre os distritos de São Francisco Xavier (São José dos Campos) e Monte Verde (Camanducaia), na divisa entre São Paulo e Minas Gerais.

Foram 9 km percorridos em 6 horas de caminhada, incluindo paradas no riacho e no cume da Pedra Partida. O desnível acumulado em altitude chegou a 1.540 m, com ponto mais baixo a 1.760 m e mais alto a 2.050 m de altitude.

Logo ao sair do acampamento Alto dos Mirantes, entre as árvores, surge uma vista perfeita da sobreposição da Pedra da Onça com a Pedra Partida, um cenário que já anuncia o desafio do percurso.

No cume da Pedra Partida, ao fazer um giro de 360º partindo do Alto dos Mirantes e seguindo pela mata verde na crista da serra, é possível avistar a Pedra da Onça, Pedra do Rochedo, Pico do Selado, Pedra Chapéu do Bispo, Pedra Redonda, Pedra da Lua e Pedra de São Domingos. Todas essas montanhas podem ser exploradas por outras trilhas, seja pela serra ou a partir dos distritos.

Altimetria dos principais pontos da trilha e montanhas da região:

1.940 m – Alto dos Mirantes

1.800 m – Entroncamento SP-MG

1.950 m – Pedra da Onça

1.980 m – Pedra do Rochedo

1.760 m – Riacho

2.050 m – Pedra Partida

1.950 m – Pedra Redonda

1.960 m – Pedra Chapéu do Bispo

2.080 m – Pico do Selado

1.780 m – Pedra da Lua

2.050 m – Pedra de São Domingos

Pernoite no Queixo da Anta – São Francisco Xavier

Assim que nos despedimos da Dona Ricardina, ao meio dia começamos a caminhada. Neste momento a mochila cargueira nem parecia pesada, apesar da água, comida e equipamento para pernoite no Pico Queixo da Anta que está a 1.740 m de altitude.

Dentro da mata, subimos pela encosta íngreme até a parte rochosa. Ao atingir a crista da montanha, avançamos em direção a parte mais alta da pedra. Neste ponto já podíamos ver no horizonte o município de São José dos Campos.

Em seguida descemos, com corda, uma pequena encosta rochosa. Foram 2 horas de caminhada até a ponta da pedra. Então, preparamos o local do acampamento e café. Era começo da tarde e no horizonte se podia perceber que o poente seria magnífico.

Ao observar atentamente a serra, não pude deixar de admirar o formato peculiar da Pedra Bonita (2.120 m).

Com o sol se encaminhando para atrás da serra, havia chegado a hora de retornar a ponta da pedra.

Como um presente, bem abaixo na mata, do lado esquerdo da pedra, havia um bando de muriquis saltando no alto da copa das árvores. Com o zoom da máquina consegui gravar a movimentação da macacada.

Depois voltei minha atenção para o céu alaranjado. Graciosamente a silhueta do Queixo da Anta se refletiu na encosta ao lado. Na boa prosa ficamos vendo aquele espetacular pôr do sol.

Ao cair da noite, a lua nem incomodou o céu estrelado e as luzes de São José dos Campos e São Francisco Xavier.

Na manhã seguinte, aos primeiros raios do sol, as colinas ficaram todas iluminadas, clareando os morros menores no fundo do vale. Era o prenuncio de um dia de céu de brigadeiro.

Ao examinar minuciosamente até onde a vista alcançava, a oeste, ainda na sombra da serra, os eucaliptos mais altos indicavam a Pedra da Onça ou Mirante de São Francisco Xavier (1.950 m) e na elevação mais ao fundo a Pedra Partida (2.050 m).

Como é bom pousar nas montanhas da Mantiqueira!

Ao retornar, deixamos o local onde acampamos igual como o encontramos. O lixo que produzimos no acampamento foi trazido conosco para descarte em local apropriado.

Serra dos Poncianos – São Francisco Xavier Parte 2

P1010650 (Large)

A trilha seguiu a crista num pequeno declive e nivelou após trinta minutos de caminhada. Na bifurcação dobramos a direita numa descida de quase cem metros em altitude. Então passamos uma pequena clareira que parecia uma cocheira de gado e mais adiante cruzamos um pequeno riacho.

P1010658 (Large)

Margeando o riacho à esquerda por mais algumas dezenas de metros subimos a mata direção sudoeste. A subida dentro da mata mostrava inúmeras trilhas falsas de caminhos deixados pelo gado solto na serra. Subimos o morro até encontrar um terreno mais rochoso, forte indicativo de estarmos chegando ao topo.

P1010655 (Large)

Contornando à direita atingimos uma visão do horizonte onde encontramos o mirante a leste, local de onde partimos. O topo estava logo acima. Deixamos as mochilas numa pedra e subindo mais à direita contornamos uma encosta rochosa mais exposta. Em minutos atingimos o topo da Pedra Partida a 2.050 metros de altitude.

P1010654 (Large)

Naquela tarde ensolarada uma densa massa de nuvens brancas tentava atravessar aquela parte da serra. O mar de nuvens subia e se dissipava lentamente mais a oeste com a visão da Pedra Redonda e mais ao fundo o Pico do Selado, apenas um ponto escuro quase desaparecido entre as nuvens.

P1010671 (Large)

Após uma hora contemplando aquele espetáculo da natureza retornamos ao mirante para acampamento. Fomos surpreendidos com um magnífico entardecer de um pôr do sol esbraseante.

P1010674-2 (Large)

Serra dos Poncianos – São Francisco Xavier Parte 1

P1010718 (Large)

Como todo início de temporada de montanha era grande a expectativa para aquele final de semana. A previsão climática indicava muita nebulosidade e nenhuma precipitação. Então seguimos em direção a São Francisco Xavier naquela fria manhã de outono.

P1010713 (Large)

Depois de parada obrigatória para um delicioso desjejum com café, leite, pão e queijo minas, seguimos em direção a serra até um estacionamento, a 1.200 metros de altitude. Hora dos ajustes na mochila cargueira, recomendações e alongamento.

P1010701 (Large)

A trilha bem demarcada não exigiu nenhum conhecimento prévio além do esforço continuo na subida constante. Os inúmeros regatos e riachos ajudaram a refrescar, além de serem boas fontes para captação de água potável.

P1010652 (Large)

Entre paradas e prosas chegamos à crista da serra, divisa entre São Paulo e Minas Gerais. Neste ponto entramos a esquerda em direção a Pedra da Onça. Em três horas de caminhada atingimos o Mirante de São Francisco Xavier a 1.950 metros de altitude.

P1010653 (Large)

Apesar da pouca visibilidade obtemos um azimute de 270 graus oeste em direção a Pedra Partida. Ao meio dia seguimos mata adentro onde a trilha principal se confundia com aquelas feitas por vacas e cavalos que ficam soltos na serra, ou ainda, aquelas picadas na mata feitas durante a busca do avião monomotor RV-7 cujos destroços foram encontrados no início de fevereiro de 2013.

P1010636 (Large)

O final desta jornada continua no final do mês.