No coração da mata, algumas trilhas nos presenteiam com momentos únicos. A ponte estreita que cruza o rio é um deles. De longe, parece apenas um detalhe. De perto, revela a essência de uma travessia.
Ponte não é só madeira e estrutura. Ponte é ligação. É o que une margens, histórias e caminhos. É o ponto em que saímos do que já conhecemos e avançamos para o que a natureza ainda guarda para nós.
Ao pisar na primeira tábua, tudo muda: o ritmo desacelera, a atenção aumenta e cada passo se torna mais presente. A água corre abaixo, o verde abraça por todos os lados, e a trilha ganha outro significado.
É assim que a aventura se revela — não na dificuldade, mas no encantamento. Nos pequenos desafios, na concentração do caminhar, na beleza da travessia que nos chama a estar por inteiro.
Quando chegamos ao outro lado, percebemos que não foi apenas o rio que atravessamos. Foi o momento, a paisagem, a experiência.
Porque algumas trilhas não são só caminhos. São conexões.
“Há trechos do litoral em que o mar não apenas toca a terra — ele entra, se espalha e permanece”
No litoral sul do Rio de Janeiro, a região de Parati Mirim abriga três paraísos naturais: Saco do Mamanguá, Saco do Fundão e Saco da Velha. Um encontro perfeito entre montanhas, mar calmo e natureza preservada — com trilhas, praias escondidas e cenários que só se revelam para quem se aventura por terra ou por mar.
Saco do Mamanguá — o famoso “fiorde tropical”
O mais conhecido dos três, o Mamanguá impressiona pelos 8 km de extensão e 2 km de largura, cercados por montanhas íngremes e águas tranquilas. A água é clara na entrada e mais rasa e turva próximo ao manguezal, no fundo do “saco”.
Acesso às trilhas a partir de Parati Mirim:
Margem direita: por trilhas e/ou barco.
Margem esquerda: por barco, para então acessar as trilhas.
Um cenário perfeito para caminhar ou simplesmente contemplar.
Saco do Fundão — o mais escondido
Menos conhecido e cheio de reentrâncias, o Fundão guarda diversas praias escondidas. Algumas têm acesso por trilha — como Espada Velha e Furado — e outras somente por barco.
No fundo da enseada estão os manguezais e a foz do Rio dos Meros. Dentro do “saco”, é possível visitar as ilhas da Cotia e das Almas, enquanto que a praia de Jurumirim está localizada no lado externo da costa e o acesso é por barco e caminhada de 1 km.
Um destino para quem gosta de lugares tranquilos e pouco movimentados.
Saco da Velha — praia, gruta e águas cristalinas
Clássico nos passeios de escuna, o Saco da Velha só pode ser acessado por mar, tanto a partir de Paraty quanto de Parati Mirim. A enseada abriga uma pequena praia e a interessante Gruta do Saco da Velha, localizada na baía da Preguiça. A visita na gruta é ideal na maré baixa, quando não é preciso nadar até a entrada.
Dica: combine o passeio com uma parada na ilha dos Cocos, excelente para mergulho livre. Fica a apenas 10 minutos de barco.
Curiosidade: o que significa “saco”?
A palavra “saco”, tão presente nos nomes dessa região, também tem usos diferentes na Marinha e na linguagem popular.
1) “Saco” na geografia e navegação
Em termos técnicos, um saco é uma pequena baía ou enseada, uma porção de mar que avança para dentro da costa — exatamente como o Mamanguá, Fundão e Velha. É um termo tradicional da geografia física e da navegação costeira.
2) “Saco” na Marinha (objeto)
No ambiente naval, “saco” também é o clássico saco de marinha (sea bag), usado pelos marinheiros para transportar pertences e, claro, os impecáveis uniformes brancos da Marinha do Brasil.
3) “Saco” nas gírias
O termo ainda dá origem a expressões bem brasileiras, dentro e fora do meio militar, como: puxa-saco, encher o saco e estar de saco cheio. Uma palavra simples, cheia de significados — geográficos, culturais e linguísticos.
Desta vez, como ninguém é de ferro, descemos a Serra do Mar, com amigos de São Paulo, para fazermos duas trilhas fáceis, no sul do Rio de Janeiro, região de Parati Mirim.
O sábado amanheceu cinzento e garoando, então, pé na trilha da Praia do Furado. A cada passo um tesouro natural foi revelado: um trecho da mata atlântica, o rio Parati Mirim, a pequena Praia da Bruna para finalizar na Praia do Furado. Um recanto de quietude e calmaria, escondido no Saco do Fundão. Praticamente um aquário natural de água cristalina. Um convite ao mergulho para avistar cardumes de pequenos peixes, conchas do mar e esqueletos de bolachas-do-mar. Uma praia abrigada, sem ondas, quase selvagem.
Na sequência, parada na praia de Parati Mirim para celebrar com os amigos de São Paulo. Ao final do dia, pernoitamos no Remo Hostel, uma hospedaria embrenhada na mata.
O domingo amanheceu nublado com um tímido sol. Após café da manhã pegamos o barco no cais de Parati Mirim. Seguimos para o Saco do Mamanguá, em um mar sossegado, até a Praia do Cruzeiro. Deste ponto, iniciamos a trilha, numa subida constante até o Pico Pão de Açúcar. A 425 m de altitude, com nuvens indo e vindo, a vista se abriu aos poucos. Em dias sem nuvens, conseguiremos avistar diversas praias do Saco do Mamanguá, Ilha do Algodão, Ilha Grande, PE da Serra do Mar, PN da Serra da Bocaina e Pedra do Frade.
Um final de semana de pura conexão com a natureza. Foram 6 quilômetros de trilhas, conectado com a simplicidade local e a beleza natural do litoral sul do Rio de Janeiro.
Após algumas trilhas e caminhadas mais longas na região de Parati Mirim, passamos o último dia em trilhas leves e de curta duração.
Pela manhã já tínhamos percorrido três trilhas: caminhada até uma praia e mangue no Saco do Fundão e uma cachoeira no rio Paraty-Mirim. Em seguida partimos para a praia do Furado. Foram 30 minutos de caminhada em estrada de terra e trilha.
Um paraíso de praia de água transparente, sem onda, praticamente uma lagoa esverdeada, numa extensão de 40 metros de areia. Uma verdadeira piscina natural para se passar horas a beira mar. A praia fica bem em frente a ilha da Cutia.
Explorando os arredores, no canto direito da praia, entre as pedras, encontramos um louva-deus. Parece um inseto tranquilo, mas não se engane, o louva-deus é um inseto predador nato que evoluiu para ser o melhor caçador.
Carnívoro e inteligente. O louva-deus tem uma dieta a base de insetos, anfíbios e até pequenos répteis. Acredite se quiser, o louva-deus aprendeu a pescar pequenos peixes, como o barrigudinho, e caçar pequenos pássaros como o beija-flor.
E ter um nome como esse não é para qualquer um: por conta de suas patas dianteiras, quando aproximadas, dão a impressão de que ele está rezando.
A praia Ponta Negra é um sossego, de vila caiçara simples e mar esverdeado. Um cantinho especial do litoral sul do Rio de Janeiro.
Ao entardecer, na areia quente, entre um mergulho no mar e outro no riacho do Caju, de água refrescante que desce a montanha, espio o pôr do sol cair lentamente no oceano. Uma caminhada de oito quilômetros da vila das Laranjeiras até a Ponta Negra. Vale a pena cada passo.
O trajeto permeia as encostas da Mata Atlântica, entre regatos, riachos, cachoeiras e praia badalada como a do Sono, e outras selvagens como a dos Antigos, Antiguinhos e Galhetas, até Ponta Negra. No entorno também vale a pena explorar a cachoeira das Galhetas e do Saco Bravo.
Depois é descansar no camping da Branca. Enfim, a Ponta Negra é um lugar para esquecer do mundo.
Próximo ao cais de Parati Mirim, iniciamos a trilha atravessando o morro para caminhar na margem direita do Saco do Mamanguá. Fizemos curtas paradas nas praias das Pacas, Grande do Saco do Mamanguá, Bica, Pontal, até chegar na praia da Curupira, após quatro horas de caminhada.
Além da beleza singular da praia da Curupira, nos chamou atenção a escolinha, com belas pinturas nas paredes e no chão, de animais e pássaros da mata, colocando o aprendizado no visual do dia a dia das crianças. Havia também placas com frases valorizando a natureza, a família e o caiçara; E suas coisas como a “canoa caiçara”.
Uma pena não poder conversar com a professora e alunos, pois a escolinha estava fechada devido as férias escolares.
Muita criatividade e cores nos desenhos. Até desenharam e pintaram um pássaro da imaginação.
A Reserva Ecológica Estadual da Juatinga foi criada em 1992 e também é parte integrante da Área de Proteção Ambiental do Cairuçu.
A Ponta da Juatinga tem elevada importância na proteção dos atrativos naturais de grande beleza cênica composta por uma fauna e flora ameaçada de extinção, o farol e atrativos culturais de populações representantes da cultura caiçara tradicional.
Por terra, ou pelo mar, chegamos a praia do Sono. Na década de 60, centenas de famílias caiçaras viviam da pesca artesanal e da agricultura. Atualmente algumas dezenas de famílias vivem dos campings, turismo de verão e feriados prolongados.
A travessia percorre as praias dos Antigos, Antiguinhos e Galhetas, locais de acampamento proibido. Na praia da Ponta Negra a história diz que numa canoa de voga quatro homens aportaram por lá e fundaram o vilarejo.
O desafio é seguir adiante na trilha mais íngreme e longa da travessia. Local ímpar de trilha na Mata Atlântica até a bela Cairuçu das Pedras. O caminho ainda reserva a beleza do Saco das Enchovas até a praia Martim de Sá.
A travessia tem seus desafios recompensados pela natureza exuberante, pessoas simples e que amam a natureza como a Branca na Ponta Negra, o Sr. Apricho no Cairuçu e o Sr. Maneco na Martim de Sá.
Esta travessia percorreu a Ponta da Juatinga, Enseada da Cajaíba, Saco do Mamanguá até Parati Mirim.