Trilhas do Vale dos Mascates

Se você é do tipo que aprecia trilhas longas, cercadas por natureza preservada e pelo som das águas, o Parque Nacional da Serra do Cipó – Portaria Areias, guarda um convite especial. Ali, entre paredões que formam um pequeno cânion e uma cachoeira de beleza imponente, a jornada combina tranquilidade e desafio na medida certa.

O Cânion das Bandeirinhas é moldado pela erosão das rochas quartzíticas. O ribeirão abriu um corte profundo na serra, revelando paredões de 80 m e piscinas naturais de água cristalina. A trilha segue por estradas e trechos planos, cruzando campos de cerrado, o Ribeirão dos Mascates e pequenos cursos d’água. Apesar do relevo suave, a distância total de 24 km e os trechos expostos ao sol exigem preparo.

A Cachoeira da Farofa surge em meio a vegetação do cerrado, encravada na serra, com quedas sucessivas, que somam cerca de 70 m de altura e desaguam em um poço profundo, cercado por paredões de rocha quartzítica. Um desvio de 4 km de ida e volta leva até ela, atravessando cursos d’água e campos ensolarados. Ao chegar, a água despenca no poço, criando um cenário que impressiona e envolve.

O dia termina no Mirante do Bem, a cerca de 1.000 m de altitude, com visão panorâmica do Vale dos Mascates e do Vale do Bocaina. Ao todo, percorremos 33 km em 8 horas – 10 km a pé e 23 km de bike – encerrando a jornada com a sensação de dever cumprido e conexão total com a natureza.

Estas trilhas podem ser percorridas a pé e de mountain bike. O nível de dificuldade pode ser considerado fácil a moderado, especialmente quando se combina os dois modos de deslocamento. Como o terreno é praticamente plano, a principal exigência está na extensão do percurso e nos trechos expostos ao sol. Independentemente do ritmo, com paradas para banho e descanso, trata-se de uma trilha que ocupa o dia inteiro.

O Brilho da Superfície

Mergulhei devagar, como quem entra em outra dimensão. A luz da superfície se fragmentava em mil pedaços, inundando o fundo com reflexos que dançavam sobre formas e cores. Logo percebi que ali era muito mais do que parecia ser.

Peixes atravessavam espirais amarelas como se seguissem correntezas invisíveis. Uma tartaruga, bem camuflada no fundo azulado – anciã, serena – guardiã desse mundo de profundezas silenciosas. Havia flores de cores e formas que alucinavam, folhas em movimento, um macaco curioso atrás de um cacho de banana – lembrança viva das matas tropicais que já percorri.

De repente, um caramujo repousava em espirais azuis, como se o tempo girasse dentro de sua concha. Abaixo, um tatu caminhava pelo leito arenoso, enquanto uma borboleta multicor flutuava tranquilamente, sem o bater das asas.

Mais adiante, uma coruja me observava – olhos de sol e lua, guardiã do mistério noturno. E, ao lado, um felino branco, uma silhueta sem olhos — seria um gato ou um guepardo? – Atento, parado, fantasmagórico. Até um galizé surgiu nas profundezas do meu delírio.

Atento, vejo sóis, luas e estrelas riscando aquele mergulho, unindo o céu, a terra e as profundezas. Era como se cada ser vivo, cada cor, cada forma, fosse um fragmento do que vivi – nas selvas escondidas, nas cavernas de águas turbulentas, nas lagoas silenciosas, nos rios de poços cristalinos e nos oceanos de outra dimensão.

Um mosaico de lembranças que nunca se desfaz, apenas ressurge na superfície. Tudo parece tão real – mergulhado nas memórias de um instante fora do tempo. Porque o que foi vivido não afunda na memória – brilha na superfície.

Juju – de Borda Infinita à Queda Escondida

A Cachoeira do Juju é uma das principais atrações da Travessia Baependi-Aiuruoca, localizada no Parque Estadual da Serra do Papagaio, em Minas Gerais. Durante a travessia, ela é visitada na manhã do segundo dia, em um trecho que desce a Serra da Chapada por uma trilha de fácil acesso, a apenas 2 km do acampamento Cabana PESP.

Há também um acesso alternativo – partindo do centro de Baependi, são 33 km por estrada de terra até um estacionamento, seguidos de 1 km a pé por trilha até o topo da cachoeira, a 1.580 metros de altitude. Seu principal atrativo é a piscina de borda infinita, formada pela queda de aproximadamente 130 metros – detalhe que passa despercebido para quem realiza a travessia.

Sem dúvida, a Cachoeira do Juju é uma parada obrigatória na travessia, oferecendo paisagens impressionantes e um banho revigorante na piscina de borda infinita.

Trilhas do Vale do Bocaina

No final de setembro, partimos rumo ao Parque Nacional da Serra do Cipó. As trilhas, embora longas, apresentam poucos desníveis, tornando a caminhada leve. Nesta época, o nível dos rios e ribeirões está baixo, permitindo acesso seguro a diversas cachoeiras – um dos grandes atrativos da região – que, durante a temporada de chuvas e trombas d’água, se tornam de difícil alcance, inclusive ao atravessar os cursos d’água.

Entramos pela portaria do Retiro e seguimos pela trilha principal até o primeiro desvio à direita, atravessando o rio Bocaina para adentrar um pequeno cânion. Seguimos pela margem oposta – o lado direito do rio que forma a cachoeira – e, a partir daí, o caminho acompanha o leito rochoso até a Cachoeira das Andorinhas, que despenca em duas quedas sobre um poço profundo e de águas tranquilas.

Retornando à trilha principal, caminhamos ao lado do rio Bocaina e, em poucos minutos, observamos a esquerda um alto paredão rochoso com uma vertente inclinada e profunda, anunciando uma nova queda d’água. Tímida nesta época, ela forma um belo poço de água translúcida, de temperatura agradável e fundo arenoso, facilitando o acesso à Cachoeira do Gavião. Ambas as vertentes desaguam no rio Bocaina.

Continuando pela trilha principal, pela margem esquerda, atravessamos um pequeno curso d’água e, em seguida alcançamos a margem direita, percorrendo cerca de quatro quilômetros até a Cachoeira do Tombador. Apesar do volume reduzido de água, formava um poço largo com uma pequena prainha de água doce, que facilitava o acesso à parte mais profunda e ao segundo poço, logo acima, entre as pedras.

No retorno, fizemos uma última parada no rio Bocaina, no ponto conhecido como Bambuzal. Com o leito baixo e sem correnteza, era possível caminhar rio acima por dezenas de metros até alcançar as partes mais profundas, observando pequenos cardumes de peixes através da água amarelada clara.

Entre caminhadas e banhos nos poços do rio e das cachoeiras, concluímos um dia intenso de 27 km percorridos a pé em 9 horas.

Totem de Pedra e Café com Amigos

Durante uma trilha, a gente encontra muito mais do que árvores, pedras e rios. A gente encontra silêncio, encontro com o agora – e às vezes, até pequenas mensagens deixadas pela natureza ou por outros caminhantes atentos. Como aquele totem de pedras equilibradas sobre uma rocha no meio do riacho: simples, silencioso, mas cheio de significado.

Cada pedrinha ali foi escolhida e colocada com cuidado em cima da outra. Um gesto que fala de presença, de equilíbrio, de conexão. Um lembrete de que, mesmo no meio da correnteza, da vida ou da trilha, a gente pode parar. Respirar. Estar presente.

Após tanto caminhar, um amigo prepara o café. A simplicidade de um gesto. A chaleira verte lentamente a água quente sobre o pó, enquanto o som e o aroma se espalham no ar. O café escorre tranquilo, como o riacho, enchendo a xícara com calor e presença. A bandeja de madeira traz gravada uma palavra simples e profunda: amor.

Uma pausa com propósito deixa a conversa leve entre goles. Momentos assim têm o poder de se gravar na memória, muito mais do que qualquer foto.

Essas duas imagens – o totem no riacho e o café partilhado – se encontram numa mesma essência: a importância das pausas com significado. Em meio à vida, tudo convida a estar mais presente. A vida desacelera. E é aí que a gente percebe que as melhores partes da caminhada nem sempre estão no topo da montanha, mas nos pequenos rituais do caminho.

Experimente parar. Empilhe pedrinhas. Passe um café. Compartilhe. Porque estar na natureza é mais do que caminhar – é se reconectar com o que realmente importa.

Aprender a Caminhar com o Vento

Tem dias em que o vento parece falar, não em palavras, mas em empurrões e desconforto. Hoje foi um desses dias – e, mesmo assim, resolvemos subir a montanha.

O vento não parava. Ele não atrapalhava, mas também não dava descanso. Estava ali o tempo todo, como uma presença firme, lembrando da força da natureza. A trilha seguia a quase dois mil metros acima do nível do mar, aberta para o horizonte em todas as direções. O vale lá embaixo parecia distante, e o céu, mais perto do que nunca.

Quando o sol começou a descer, o céu transitou de um azul calmo para um laranja intenso. O vento seguia firme, trazendo um som constante e vibrante, alto demais para não ser ignorado, mas também convidava a um silêncio interno, que eu escolhi manter.

Mais tarde, dentro da barraca, com o vento ainda uivando lá fora, tentei acompanhar aquele som incessante, deixando que ele embalasse meus pensamentos. A noite estava escura, uma noite de lua nova, e as luzes das cidades que se espalhavam ao longo do vale brilhavam destemidas, como faróis iluminando todo o vale.

O vento não descansou durante a noite. Soprou firme, como se quisesse me lembrar de que ali, naquele lugar alto e exposto, não há pausa. Antes do amanhecer, saí da barraca. O céu ainda era escuro, mas já havia uma linha de luz crescendo no horizonte.

E ali, de pé, com o rosto voltado para o leste e o vento ainda presente, vi o dia nascer. Não havia espetáculo, só um lento clarear das formas e das cores. Talvez o vento não precise ser domado ou vencido. Talvez ele seja apenas um lembrete de que, mesmo quando tudo parece insistir em não parar, a única escolha é estar presente, aceitar o ritmo, escutar o que o silêncio por trás do barulho tem a dizer, e aprender a caminhar com o vento – não contra ele.

Vá para o Campo

Saia, vá para o campo, aproveite o sol e tudo o que a natureza tem para oferecer. Saia e tente recapturar a felicidade que há dentro de você; pense na beleza que há em você e em tudo ao seu redor, e seja feliz. A beleza continua a existir mesmo no infortúnio. Se procurá-la, descobrirá cada vez mais felicidade, e recuperará o equilíbrio. Uma pessoa feliz tornará as outras felizes; uma pessoa com coragem e fé nunca morrerá na desgraça.

Anne Frank