Mocó da Caatinga – Parque Nacional da Serra da Capivara

” Nas trilhas pela Caatinga os Mocós estavam à espreita, meio desconfiados e ariscos. “

Os Mocós saiam das fendas para ver o que estava acontecendo. De olfato privilegiado, sabiam da nossa presença antes de chegarmos. Éramos vistos como uma ameaça, visto que emitiam um som de alerta para o grupo.

Como estratégia para nos aproximar e fotografar, entrávamos na toca no sentido contrário ao vento, a fim de não sermos denunciado pelo olfato aguçado. A princípio, ficavam inerte, e logo saiam desembestado.

O Mocó é um roedor com cauda atrofiada, de pelagem cinza, alaranjado e branco, densa e macia. Animal endêmico do Nordeste e norte de Minas Gerais. Pode pesar 1 kg com comprimento de 40 cm e viver até 8 anos.

” O nome tem origem na língua Tupi, mo’kó, significa animal que rói. “

Pernoite no Queixo da Anta – São Francisco Xavier

Assim que nos despedimos da Dona Ricardina, ao meio dia começamos a caminhada. Neste momento a mochila cargueira nem parecia pesada, apesar da água, comida e equipamento para pernoite no Pico Queixo da Anta que está a 1.740 m de altitude.

Dentro da mata, subimos pela encosta íngreme até a parte rochosa. Ao atingir a crista da montanha, avançamos em direção a parte mais alta da pedra. Neste ponto já podíamos ver no horizonte o município de São José dos Campos.

Em seguida descemos, com corda, uma pequena encosta rochosa. Foram 2 horas de caminhada até a ponta da pedra. Então, preparamos o local do acampamento e café. Era começo da tarde e no horizonte se podia perceber que o poente seria magnífico.

Ao observar atentamente a serra, não pude deixar de admirar o formato peculiar da Pedra Bonita (2.120 m).

Com o sol se encaminhando para atrás da serra, havia chegado a hora de retornar a ponta da pedra.

Como um presente, bem abaixo na mata, do lado esquerdo da pedra, havia um bando de muriquis saltando no alto da copa das árvores. Com o zoom da máquina consegui gravar a movimentação da macacada.

Depois voltei minha atenção para o céu alaranjado. Graciosamente a silhueta do Queixo da Anta se refletiu na encosta ao lado. Na boa prosa ficamos vendo aquele espetacular pôr do sol.

Ao cair da noite, a lua nem incomodou o céu estrelado e as luzes de São José dos Campos e São Francisco Xavier.

Na manhã seguinte, aos primeiros raios do sol, as colinas ficaram todas iluminadas, clareando os morros menores no fundo do vale. Era o prenuncio de um dia de céu de brigadeiro.

Ao examinar minuciosamente até onde a vista alcançava, a oeste, ainda na sombra da serra, os eucaliptos mais altos indicavam a Pedra da Onça ou Mirante de São Francisco Xavier (1.950 m) e na elevação mais ao fundo a Pedra Partida (2.050 m).

Como é bom pousar nas montanhas da Mantiqueira!

Ao retornar, deixamos o local onde acampamos igual como o encontramos. O lixo que produzimos no acampamento foi trazido conosco para descarte em local apropriado.

Terra Firme – Navegar é Preciso

” O sol abraçou o amanhecer e fui remar naquele oceano imenso. Navegava em água mansa de céu azul-fino. Tentava fitar as últimas estrelas da manhã. Remava na medida do meu tempo e pensamentos.

O mar inundou as margens. O mangue desvaneceu. 

Percebi que navegava em direção a grande montanha. Estava sendo engolido pela mata. As ilhotas ficaram na retaguarda e as margens cada vez mais estreitas. A natureza trasbordava e gritava com seus encantos em todos os cantos. 

Navegava em oceano antigo. 

Cansado de remar percebi como a montanha se agigantou. Fiquei aos seus pés. Contemplei sua grandeza em silêncio. Sem precisar do tempo entendi que era hora de retornar.

Naquele momento um boto emergiu do nada.

Após o susto, foi divertido ele nadar ao lado. Então notei a montanha tão distante. Onde foi parar aquela grandeza? Por um instante fiquei pensativo, à deriva. 

Exausto, reuni forças para terminar o percurso e voltar a terra firme. “

Ponta Negra – Parati Mirim

Para apreciar e trilhar com toda calma do mundo.

A praia Ponta Negra é um sossego, de vila caiçara simples e mar esverdeado. Um cantinho especial do litoral sul do Rio de Janeiro.

Ao entardecer, na areia quente, entre um mergulho no mar e outro no riacho do Caju, de água refrescante que desce a montanha, espio o pôr do sol cair lentamente no oceano. Uma caminhada de oito quilômetros da vila das Laranjeiras até a Ponta Negra. Vale a pena cada passo.

O trajeto permeia as encostas da Mata Atlântica, entre regatos, riachos, cachoeiras e praia badalada como a do Sono, e outras selvagens como a dos Antigos, Antiguinhos e Galhetas, até Ponta Negra. No entorno também vale a pena explorar a cachoeira das Galhetas e do Saco Bravo.

Depois é descansar no camping da Branca. Enfim, a Ponta Negra é um lugar para esquecer do mundo.

Pássaro da Imaginação – Saco do Mamanguá

Próximo ao cais de Parati Mirim, iniciamos a trilha atravessando o morro para caminhar na margem direita do Saco do Mamanguá. Fizemos curtas paradas nas praias das Pacas, Grande do Saco do Mamanguá, Bica, Pontal, até chegar na praia da Curupira, após quatro horas de caminhada.

Além da beleza singular da praia da Curupira, nos chamou atenção a escolinha, com belas pinturas nas paredes e no chão, de animais e pássaros da mata, colocando o aprendizado no visual do dia a dia das crianças. Havia também placas com frases valorizando a natureza, a família e o caiçara; E suas coisas como a “canoa caiçara”.

Uma pena não poder conversar com a professora e alunos, pois a escolinha estava fechada devido as férias escolares.

Muita criatividade e cores nos desenhos. Até desenharam e pintaram um pássaro da imaginação.

Cachoeira do Índio – Vale Europeu

Nas andanças pelo Vale Europeu, região dos Lagos de Santa Catarina, o calor da primavera estava arrebatador, então seguimos até a cachoeira do Índio, na fazenda da família Kohlbeck, Estância Itaperuna, distante, morro acima, 50 km do rio dos Cedros.

Fomos bem recebidos pelos proprietários que nos orientou para chegar na cachoeira do Índio. Seguimos fazenda adentro, passando pelos cavalos, carneiros, perus e galinhas, soltos em um campo gramado, e logo abaixo avistamos as corredeiras do rio dos Cedros.

A mata ciliar abraçava o rio e a gruta estava meio escondida sob as águas. O espaço alagado debaixo da pedra não é exatamente uma gruta mas vale a pena conferir. Deste ponto, logo à frente com a queda livre formada, o rio parece um sumidouro.

Passo a passo, procurando chão seco, vou de encontro onde a base da cachoeira pode ser fotografada. Com cuidado voltamos alguns metros, e descemos a trilha até chegar na parte baixa da cachoeira. Uma cortina d’água se abriu detrás das árvores.

O encanto é imediato, tanto pelo vento molhado, do paredão disposto em camadas de pedras, com destaque aos tons escuros e coloridos das rochas e vegetação, como o caminho molhado que passa atrás da enorme queda d’água.

Então segui no caminho molhado. Não tem como não ficar empolgado neste momento. Aquele enorme volume caindo em forma de cortina d’água, com um som bárbaro e tudo ficando molhado. Saí do outro lado, de corpo e alma lavada.

Pegadas na Areia – Ilha Grande

Com pegadas na areia deixamos nossos pensamentos ao vento.

Na travessia de barco até o Aventureiro a mente ainda surfou nas ondas de pensamentos daninhos, mas na caminhada do dia seguinte as preocupações ficaram ausentes. A ansiedade, comum no dia a dia da cidade, sumiram a beira-mar. Agora sim, realmente conectado ao meio.

Após almoço em Dois Rios, subimos a trilha-estrada em direção a vila de Abraão.  Debaixo de chuva torrencial, aceleramos os passos sem fraquejar sob a enxurrada escorrendo pela estrada. Chegamos encharcados, cansados e felizes no vilarejo de Abraão.

Uma travessia que lavou a alma.

Em cada acampamento, deixamos o local onde acampamos igual como o encontramos. O lixo produzido foi trazido conosco e descartado em local apropriado.

Novo Milênio – Ilha Grande

Em toda viagem somos marcados por algum acontecimento inusitado e sempre desejamos que seja bom. “

Em Angra dos Reis no cais dos pescadores, embarcamos com moradores da praia do Aventureiro. Nosso destino em mais um trekking na Ilha Grande.

Partimos lentamente atravessando a baia entre belas e pequenas ilhas como Botinas e dos Porcos. O dia estava ensolarado, brisa levemente fria e mar calmo.

É sempre bom voltar no lugar onde um sonho foi realizado. Desta vez, eu vi um sonho nascendo no olhar de uma criança. Como os pais pareciam ser amigos de todos no barco e principalmente do capitão, a criança estava bem à vontade.

O menino parecia ter um olhar de cumplicidade com o mar, com suas fantasias de criança. Um sorriso sincero. Parecia estar cochichando com o vento em planos sendo traçados nas marolas da travessia.

Tomara que o peso da idade e das responsabilidades naturais da vida, os sonhos não sejam abandonados na imensidão do mar. Que as frustrações não deixem os sonhos perdidos ao vento. Que aquele olhar longe seja apenas a esperança crescendo dentro do peito.

No meio da jornada o capitão chama o menino para dentro da cabine. Então ele assume o comando da embarcação. Um tímido sorriso se desenha naquela face. Havia uma magia naquele olhar. Um novo olhar para o horizonte de quem nasceu em um novo milênio.

Engarrafamento nas Montanhas do Brasil

Hoje em dia nas grandes cidades não temos como evitar um engarrafamento no transito ou uma fila no banco, mas engarrafamento na montanha, ninguém merece!

Então vamos deixar a alta montanha, e voltar o olhar nas montanhas do Brasil. Infelizmente, estamos encontrando o mesmo problema. O engarrafamento, por exemplo, começa na portaria da entrada, parte alta do Parque Nacional de Itatiaia, com enorme fila de carros já no início da madrugada. Depois, apesar da regra limitando o número de pessoas nas montanhas, os engarrafamentos naturalmente acontecem na subida do Pico Agulhas Negras e Prateleiras.

E quando o local ainda não é protegido e controlado, com regras de uso para segurança dos visitantes. Como exemplo, o Pico do Marins onde o engarrafamento na escalaminhada final da montanha é comum na alta temporada. Enquanto que na Serra Fina, a cada temporada temos inúmeros casos de pessoas perdidas durante a travessia, e o resgate pelo ar e/ou por terra são acionados. Isso sem falar do lixo deixado nestes locais.

Novamente, além dos montanhistas inexperientes, temos também a falta de consciência sobre não deixar lixo na montanha, respeitar regras de segurança no trekking e camping, ter um bom planejamento e equipamento adequado. Aqui não temos o ar rarefeito, mas no inverno temos frio, vento e temperaturas negativas podendo causar hipotermia, e no verão temos tempestades com raios e ventania forte. Ainda temos a possibilidade de cerração, neblina e dificuldade para orientação e navegação em terreno rochoso, íngreme e bastante irregular.

Então vamos para um local de fácil acesso na montanha. Mesmo assim, hoje em dia, também tem engarrafamento no topo. Neste caso, veja como fica a Pedra da Macela em Cunha. Milhares de “self” ao nascer do sol.

Abrigo do Rochedo

Num passado distante, os tropeiros vinham de Minas Gerais para vender suas mercadorias na região. Nesse lugar paravam para pousar embaixo de um rochedo, daí a origem do nome – Abrigo (Pouso) do Rochedo.

Desde 1975 o local foi reflorestado e suas nascentes renasceram. A propriedade é rodeada por cachoeiras, nascentes, rios e montanhas da Serra da Mantiqueira. Desde 2022 está separado da pousada.

Aproveitamos para caminhar nas trilhas do Pinhal e da Montanha até os mirantes e depois na trilha das Cachoeiras, por uma manhã toda até início da tarde. As trilhas são limpas, autoguiadas e sinalizadas.

A caminhada pela trilha do Pinhal nos levou ao 1º mirante, da Gruta, onde tem-se uma vista tímida das montanhas ao redor. Sempre subindo, chegamos numa bifurcação, a direita seguimos para o 2º e 3º mirante, Pedra da Divisa e do Cruzeiro.

Na Pedra da Divisa ainda conseguimos algumas fotos, pois as nuvens já plainavam nos morros baixos. No mirante do Cruzeiro, ficamos entre nuvens. Após descanso e lanche, começamos a descida, e na bifurcação seguimos em frente até o 4º mirante, Pouso do Rochedo. Deste ponto, avistamos o município de São José dos Campos / SP.

Descendo pela trilha da Montanha, chegamos nas imponentes Castanheiras Portuguesas. Deste ponto, subimos a trilha das Cachoeiras, ao lado do rio Santa Bárbara, para conhecer as cachoeiras da Escada, da Mata, dos Taperas e da Mina.

Na volta, o espetáculo é a cachoeira Santa Bárbara, com sua monumental queda de 80 m de altura. Por último a cachoeira da Gruta, onde pode-se entrar atrás da queda que forma uma cortina d’água com 4 m de altura. Pura diversão e adrenalina, entrando com cuidado pela borda lateral.

Nesta caminhada subimos os quatro mirantes e finalizamos com cachoeiras espetaculares, num total de aproximadamente 6 km de caminhada.