Refúgio as Margens do Mar Lagoa

Dentro da enseada, o mar se esquece de si. A água salgada se torna um espelho, imóvel, refletindo o céu e a calma que insiste em permanecer. Mas se olhar de perto, sente-se a respiração das marés — vivas, discretas, presentes.

A faixa de areia parece pouca, tímida, margeando o mar lagoa, com delicadeza. Cada passo sobre ela é como conversar com o tempo, pedindo que desaceleremos, que sintamos. No barco, desligamos o motor, nos deixamos ficar à deriva, a contemplar o momento.

Encoberta pela mata atlântica, é visível uma casinha de paredes brancas, portas e janelas em azul celeste com molduras mais escuras, telhado de barro, sólida sobre pedras que a erguem acima do ritmo do mar. Os cômodos guardam histórias invisíveis, enquanto a natureza circunda, sem pressa, sem barulho.

Palmeiras se erguem ao redor, majestosas, acompanhando o vento parado. A floresta sussurra. Na frente da casa, uma pequena embarcação repousa, quase flutuando sobre a água. À esquerda, a canoa descansa sobre cavaletes, silenciosa. À direita, um veículo estacionado, quase escondido pela mata, lembra que ainda existe um mundo lá fora.

Este é um refúgio. Um ponto onde a natureza conversa com quem escuta, onde o silêncio não pesa, mas acolhe. Onde cada detalhe — o mar, a areia, as árvores, a casinha branca — é um convite para sentir, respirar e se deixar levar pelo essencial.

Janela para o Tempo

Entre as ruínas cobertas pela vegetação em Parati Mirim, encontramos uma janela antiga que resiste ao tempo. Sua origem exata permanece envolta em mistério — histórias contadas, lembranças cruzadas e fragmentos do passado que ecoam pela região.

O que se sabe é que, ao longo da história, estruturas semelhantes foram usadas como pontos de quarentena, isolando viajantes que chegavam de navio para evitar a propagação de doenças vindas de outros continentes. Não há registros oficiais de que isso tenha ocorrido aqui, mas a narrativa local mantém vivo esse imaginário.

Hoje, restou apenas um portal vazio, agora tomado pela Mata Atlântica que renasce e ocupa o que antes era pedra, medo e isolamento.
Galhos atravessam o quadro como se redesenhassem a paisagem e nos lembrassem de que:

A natureza não só resiste — ela reconquista.

Esse contraste entre o mistério do passado e a força do presente nos inspira a olhar para a história com respeito e para o agora com esperança.
Onde um dia houve incerteza, hoje há luz.
Onde havia isolamento, hoje há vida.

Parati Mirim — Trilha, história e natureza se encontram aqui.

À Beira da Lagoa

O pai senta, chapéu inclinado.

A vara mergulha na água tranquila,

um gesto simples, que carrega paciência e cuidado.

.

O filho observa, de pé,

olhos atentos ao reflexo do céu,

aprendendo sem palavras a escuta do mundo,

a quietude que ensina mais que qualquer fala.

.

O cachorro, fiel e imóvel,

acompanha o instante como um guardião silencioso.

.

O vento dobra folhas e pensamentos.

O sol se derrama sobre a lagoa.

Cada ondulação se torna memória,

como se o tempo pudesse se alongar

e caber nesse instante perfeito.

.

Pai e filho, ligados pela calma,

pela atenção e pelo simples estar juntos,

descobrem que a paz não é ausência,

mas presença —

.

na luz que toca a água,

no silêncio que fala,

no instante que é só deles,

onde o mundo inteiro se dobra

em natureza e amor contido.

.

E por um breve momento,

o tempo descansa — à beira da lagoa.

Nada é por Acaso

Nada é por acaso. Cada passo, cada encontro, cada mudança vem no tempo certo. Confiar nesse ritmo é descobrir que o universo tende ao caos.

Tudo tem seu momento. O que deve chegar, chega. O que deve partir, parte. O universo sussurra em silêncio, e cada momento se encaixa como deveria.

Um Mundo Ainda Analógico

Em meio ao avanço digital que molda nossos dias, há lugares que parecem ter sido poupados pela pressa do tempo. A Enseada da Cajaíba e Ponta da Joatinga, no litoral sul do Rio de Janeiro, é um deles. Ali, a vida ainda acontece com os pés descalços na areia, os olhos atentos ao mar e as mãos ocupadas com o que é real. É um mundo sem notificações, onde a infância corre solta entre ondas calmas e partidas de futebol improvisadas. Um cotidiano simples, mas cheio de presença – onde o analógico não é nostalgia, é vida.

Entre uma encosta e outra, deixei-me perder, no melhor dos sentidos, entre praias que apareciam e desapareciam a cada passo. O sol, alto no céu azul profundo, tingia de laranja a areia ainda molhada, enquanto ondas mansas deslizavam suavemente pelas curvas daquela enseada salpicada de embarcações de pesca.

Nas margens, pequenas comunidades se revelavam – casas caiçaras simples, algumas de veraneio, outras abrigando pequenos comércios locais. Mas o que mais chamou a atenção foram as crianças – em bandos, correndo para jogar uma pelada na praia ou se atirando nas ondas tranquilas. No píer de madeira, brincavam na beirada como se o risco não existisse, mergulhando no mar abrigado e voltando à superfície para mais um salto, mais uma gargalhada.

Era impressionante ver crianças de cinco, seis anos nadando com maestria e alegria, nenhuma com um celular nas mãos. Apenas vozes, gritos e risadas enchendo o ar – entre um “tibum” e outro – criando uma atmosfera leve, viva, cheia de liberdade.

E os adultos? Alguns ocupados com redes e barcos, preparando-se para o trabalho no mar. As mães, de dentro das casas, observavam tudo com um olho na panela e o outro na janela – aquele cuidado silencioso e atento.

Era esse o cotidiano na Enseada da Cajaíba e Ponta da Joatinga – uma vida simples, vibrante e simplesmente humana.

O Maior Primata das Américas

” Passava do meio dia de sábado de Carnaval, já tínhamos atravessado o Vale dos Duendes, descendo a Serra dos Poncianos em direção a Monte Verde. Diferente do avistamento em dezembro, desta vez eles estavam descansando próximo a copa das árvores. Um grupo entre cinco a oito muriquis, sem um dominante aparente.”

10 Curiosidades sobre o Muriqui:

1. Do tupi, muri’ki significa “gente que bamboleia, que vai e vem”. Como tem hábito dócil é reconhecido como “povo manso da floresta”. Outros nomes: buriquim, buriqui, mariquinha, mariquina, muriquina e mono-carvoeiro.

2. Endêmico em regiões montanhosas da Mata Atlântica. Encontrado ao norte do Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais e sul da Bahia.

3. Espécies do gênero Brachyteles arachnoides (Muriqui-do-Sul) e o Brachyteles hypoxanthus (Muriqui-do-Norte).

4. Maior primata das Américas e uma das espécies mais dóceis entre os primatas.

5. Um macho adulto chega a medir 1,50 m de corpo e cauda, e pesar até 15 kg. Tem a face preta, pelagem bege-marrom-amarelada. Vive, em média, 30 anos.

6. Gestação de 7 meses pode gerar até 2 filhotes, com intervalo entre 2 a 3 anos. Os filhotes permanecem nas costas das mães até 2 anos para o desmame.

7. Alimenta-se de frutos, folhas, flores e lianas.

8. Considerado um “restaurador da floresta”, pois, em apenas um dia, pode dispersar sementes de até 8 espécies de plantas.

9. Reconhecido pela UNESCO como “identificador de qualidade ambiental”, é símbolo da “Reserva da Biosfera da Mata Atlântica”.

10. O muriqui está em perigo devido à destruição do seu habitat natural e população decrescente. Está na Lista Vermelha da UICN – União Internacional para a Conservação da Natureza.

O Farol

A noite escura nos envolveu em desoladora quietude no alto do rochedo frio. Por volta da meia-noite, uma chuva fina começou a cair, seu som confundindo-se com o das ondas que castigavam a encosta. No vasto mar, apenas uma penumbra quebrava a escuridão, e uma leve ondulação desenhava-se na linha do horizonte.

Nosso conforto vinha da pequena torre do farol. Sua luz forte e constante servia como um guia firme para as embarcações, evitando colisões com a traiçoeira península. Era uma verdadeira fonte de esperança, direção e segurança para os navegantes. Uma luz guia que cortava as trevas, orientando o caminho em noites sombrias.

Durante a madrugada, as horas escorreram devagar, como areia por entre os dedos. Então, uma faísca de luz despontou no horizonte. Entre nuvens baixas, o primeiro brilho do sol brincava de esconde-esconde, anunciando sua chegada. O nascer do dia explodiu em tons de vermelho e laranja, inundando o céu com sua paleta vibrante.

Num instante, tudo ao redor se iluminou, transformando a paisagem em um alegre azul diurno.

O Limiar entre Dois Mundos

No momento em que o sol se despede no horizonte e a noite começa a desdobrar seu véu de estrelas, estamos no limiar entre dois mundos. O céu é dominado por tons quentes que desbotam o azul no firmamento. Entre a luz fugaz e a escuridão iminente, sentimos um frio penetrante.

Neste instante, as formas rochosas se erguem como sentinelas silenciosas, enquanto a terra e o céu parecem arder em chamas, em nuances quase dolorosas à vista. A terra parece integrada ao infinito, como parte de algo maior, à medida que o crepúsculo avança. As sombras se dissipam, cedendo lugar à escuridão que dança com os astros e ao brilho das cidades.

Novas formas rochosas emergem como guardiãs, lançando um manto de mistério sobre a paisagem. A imaginação vagueia livremente até que o sono chegue, trazendo sonhos esquecidos que se dissolvem ao amanhecer. Na aurora gélida, antes dos primeiros raios de sol, o termômetro indica temperaturas abaixo de zero. Tudo ao redor parece congelado, inclusive minha mente. Por sorte, logo o sol traz consigo luz e calor.

O céu se transforma gradualmente em um novo espetáculo. Agora banhado pela radiante luz do dia. Neste novo momento o dia começa a desdobrar seu manto de esperança. Estamos em um novo limiar entre dois mundos.

Acampar no Inverno

Acampar na montanha no inverno é uma experiência única e no mínimo especial. Requer uma dose de ousadia, vontade e equipamentos adequados para garantir sua segurança, sobrevivência e uma boa noite de sono.

O frio pode chegar ao extremo de temperaturas negativas. Essa dinâmica do clima está associada a fatores como latitude, altitude, relevo, vegetação, chuva, vento, entre outros. Além do nosso corpo também sentir a temperatura do ar de maneira aparente.

Chamamos isso de sensação térmica, sentimos que a temperatura está diferente da temperatura ambiente. Por exemplo, ao entrar num poço gelado, e ao sair, teremos a sensação que a temperatura do ambiente está mais agradável.

Nas montanhas brasileiras, no inverno, acima dos 2.000 m de altitude, é comum, no instante que o sol se pôr, em horas, a temperatura cair abruptamente em dezenas de graus célsius, e antes da meia noite facilmente chegar a 0ºC e negativo.

Então, a geada chega devagarinho, escondida na noite estrelada. É o orvalho congelado que, sob a forma de fina camada de gelo, recobre tudo que estiver ao relento. E assim, com certeza ao amanhecer o teto da barraca estará completamente congelado.

Ao caminhar na trilha, seguramente encontrará gelo acumulado no solo e sobre a vegetação. Facilmente conseguirá coletar placas de gelo as margens dos regatos, riachos e cachoeiras. Por horas esse gelo se conservará, mesmo em dias ensolarados do inverno.

Como disse, equipamentos adequados são essenciais para garantir sua sobrevivência. Por exemplo, o perigo da hipotermia é quando uma pessoa perde calor mais rápido do que pode mantê-la, em outras palavras, hipotermia é diminuição excessiva da temperatura corporal, abaixo dos 35°C.

Portanto, as roupas devem ser para temperaturas extremas, em camadas (1ª pele, 2ª pele), vestir um corta-vento, são fundamentais para manutenção da temperatura corporal. Para dormir, outros itens importantes são o isolante térmico e saco de dormir para baixas temperaturas.

Isso visto que o organismo humano, para realizar suas funções metabólicas, precisa apresentar temperatura entre 36°C e 37,5°C. Em temperaturas acima dos 37,5ºC ou abaixo dos 35ºC, irá causar problemas a saúde e requer atenção médica imediata.